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O deus do trovão: um super-herói Shell


O Poderoso Thor
foi um dos cinco Super-heróis Shell lançados em 1967 pela Ebal, e foi o único que estreou sozinho numa revista chamada de Álbum Gigante (acima o número promocional). Os outros quatro foram Capitão América e Homem de Ferro, que dividiam suas aventuras na revista O Capitão Z, e O Incrível Hulk e Príncipe Submarino, que chegaram na revista Superxis
Mas Thor tinha algo de nobre. Afinal, é um Deus vindo de Asgard. E era desenhado pelo fabuloso Jack Kirby.

O texto de apresentação do personagem foi publicado tanto na edição promocional, número 0, quanto no primeiro número da revista, lançado pela Ebal em outubro de 1967, e começava assim:

Quando as nuvens tempestuosas se fizerem ouvir através de estrondosos trovões, prestem atenção! Quando raios riscarem os céus, com seu rastro luminoso, observem cuidadosamente! O senhor desses elementos pode estar por perto, com seu magnífico martelo Uru, pronto a servir à causa do Bem! Saúdem o Príncipe dos Raios, deus do Trovão… o Poderoso Thor! Ele é filho de Odin e habita em Asgard, moradia dos deuses nórdicos, e, para lá chegar, tem que passar pela imponente Ponte do Arco-Íris!

Os Super-heróis Shell foram lançados no Brasil como parte de uma supercampanha publicitária patrocinada pela multinacional de petróleo, que consistia na distribuição das revistas promocionais (todas numeradas de ‘zero’) nos postos Shell. A campanha fez um enorme sucesso na época, e colocou os cinco personagens da Marvel “na onda” (como dizia a gíria da época), ajudando a promover também os desenhos animados de Thor, Capitão América, Homem de Ferro, Hulk e Namor na televisão.
 
Essas animações são um caso à parte. Totalmente baseadas nos quadrinhos, elas eram quase sem movimentos, praticamente uma sequência de desenhos que pareciam ter sido retirados das revistas. O que dava um ar tosco, mas que se tornou cult justamente por manter o mesmo traço dos grandes desenhistas que ilustravam os heróis.

Os desenhos animados também tinham uma peculiaridade divertida: a abertura de cada série apresentava o super-herói com sua música exclusiva, que era uma espécie de hino heróico. As músicas desses “hinos” foram compostas por Jack Urbont e a versão da letra foi adaptada para o português por Abdon Torres, que foi diretor da Globo e integrou a primeira equipe da emissora, responsável pela sua implantação.

Essas músicas também ficaram famosas e suas letras foram publicadas nas primeiras edições das revistas da Ebal. A do Thor era assim:

Onde o arco-íris é ponte,
Onde vivem os imortais,
Do trovão é deus guarda-mor
O barra-limpa,
O grande Thor

Sobre a capa da edição número 0 de Álbum Gigante, com a estréia de Thor, há uma curiosidade muito interessante. O desenho que ilustra essa capa nunca foi publicado numa história do Thor! Aliás, nem o personagem que você vê é o Deus do Trovão! Na verdade, aquele é o Demolidor disfarçado de Thor! Parece maluquice, mas não é. A história se chama “Em luta com o Deus do Trovão”, foi desenhada pelo genial Gene Colan com arte-final de J. Tartaglione, e foi publicada no Brasil na página 7 da revista O Demolidor #29, de agosto/setembro de 1971.

E tem mais um detalhe importante nesse desenho: como Thor é destro, o Demolidor se esqueceu de segurar o martelo Mjölnir com a mão direita, confusão corrigida logo na página seguinte. Pois é… quem diria: o Demolidor foi o super-herói que inaugurou a revista do Thor no Brasil. Coisas da Ebal.

Nos Estados Unidos, Thor estreou em agosto de 1962 na revista Journey into Mystery #83 (acima) e a capa foi desenhada por Jack Kirby e Joe Sinnott.

Henfil maravilha!


Por Paulo Chico

O fato de que os cartunistas têm como esporte predileto as críticas ácidas e bem-humoradas ao poder não é uma novidade. O inédito, no caso do mineiro Henfil, é que nunca se vivenciara a experiência de um artista que, munido de seus traços finos e metralhadora de grosso calibre,
conseguiu exercer tamanha influência direta sobre os rumos políticos do País. Nos mais diversos veículos, Henfil incumbiu seus personagens de apontar os desmandos de um Brasil que sobrevivia sob regime ditatorial. E de lançar luzes sobre as mazelas cotidianas de um povo acuado. Ele combateu a ditadura, abraçou a campanha da anistia, criou o slogan das Diretas Já e fez a primeira passeata pública desse movimento com um pequeno grupo de cartunistas. Era um artista multimídia: Henfil fez humor em jornais, revistas, na televisão, no teatro e no cinema.

Apuro técnico
Mestre na arte do desenho, o chargista Chico Caruso, de O Globo, reconhece a importância do caráter político que permeia toda a obra do colega, mas destaca especialmente o apuro técnico de suas criações.

“O maior legado do Henfil é seu desenho. Mais precisamente, o movimento que seus traços sugeriam, algo difícil de se reproduzir numa folha de papel. Ele conseguia imprimir movimento em algo estático. Além disso, brilhava na questão da agilidade, da perspicácia, da rapidez do ataque através do humor. Apenas a sua participação no Pasquim já bastaria para colocá-lo entre os generais na batalha pela redemocratização do País”, diz Chico, que considera que atualmente falta ousadia aos grandes jornais. “É preciso abrir mais espaço e valorizar as imagens, não só as manifestações por meio do desenho, mas também as fotos”, sugere.

A mesma visão de mercado é apresentada por Ota. “O espaço para desenho está reduzido, até os quadrinhos estão encolhendo, com reproduções miudinhas. Há vários motivos para isso, desde a redução dos jornais, pelo alto custo do papel, e até o perfil dos editores, que não gostam dessa manifestação. O Henfil tinha lugar, pois conseguiu traduzir, em poucos traços, o que a população queria dizer. Histórias impagáveis, como as do Zeferino, duraram anos e anos, tendo só três personagens principais. Ele sintetizava em desenhos o que as pessoas não podiam falar em voz alta”, afirma o cartunista e quadrinista.

À frente do seu tempo
A questão seguinte, então, torna-se inevitável. Será que haveria espaço para personagens como Orelhão, Bode Orelana, Graúna, Cabôco Mamadô, Urubu, Ubaldo e os Fradinhos nas publicações atuais?

“Ah, acredito que ele teria grande dificuldade de se colocar hoje em dia no mercado. Na verdade, nós que militávamos contra os militares acreditávamos que com a abertura poderíamos arrebentar a boca do balão, produzir muito para os jornais. Mas o que aconteceu foi exatamente o contrário. Com o início da redemocratização, eles foram, aos poucos, dispensando seus desenhistas. Diziam não precisar mais da gente”, avalia Nilson Azevedo, cartunista e quadrinista de Belo Horizonte, que nos anos 70 chegou a dividir um apartamento com Henfil em São Paulo.

“Como sempre, Henfil conseguia se antecipar aos movimentos e tendências. Foi assim que em 1979 se mudou do Rio para São Paulo, onde, segundo ele, todas as coisas importantes, do ponto de vista cultural e político, estavam acontecendo. Ele tinha como referências o Lula, o ABC, Dom Paulo Evaristo Arns… Foi para dividir um apartamento com o Glauco lá na Rua Itacolomi, em Higienópolis. Logo depois, me convenceu a também ir para lá”, recorda Nilson, que conta uma experiência assustadora daquela época.

“Certa vez, a uma da madrugada, subíamos de carro pela Avenida Angélica eu, Henfil, Angeli, Glauco e Tárik de Souza. Fomos parados pela Rota e, após 20 minutos de terror psicológico, com oito armas apontadas para as nossas cabeças, fomos liberados, veja só, com a chegada de policiais civis, que pegaram mais leve com a gente… Naquela noite, achei que a gente ia dançar…”. O episódio vem à tona para descrever peculiaridades da personalidade do cartunista.

“Era impressionante sua coragem. Nesta noite, ficamos todos apavorados. E o Henfil, que era o verdadeiro alvo deles, ficou lá, firme, sem sombra de medo. Ele era uma verdadeira usina de produção, de força. Era capaz de, mesmo doente, hemofílico, colaborar com o Pasquim, produzir para a IstoÉ, fazer o TV Mulher, desenhar para o Jornal da República e para quem mais aparecesse”, diz Nilson, que destaca ainda a rara inteligência do amigo.

“Ele era uma das pessoas mais inteligentes que já vi. Um grande observador. E poderia dizer que ele vivia sob uma espécie de ódio sagrado. Ao mesmo tempo que exibia grande agressividade, era capaz de doses absurdas de compaixão, cultivava as amizades, tinha uma capacidade absoluta de entrega. E era muito divertido, irônico”, descreve Nilson, que hoje, também afastado dos grandes jornais, desenha para causas sociais e sindicatos de Minas Gerais. Ele acrescenta: “Henfil era mesmo uma espécie de farol, alguém que indicava caminhos a serem seguidos. E que influenciou de forma determinante a política da época”.

Prova dessa interferência do artista na política foi a campanha da anistia, iniciada em São Paulo de forma quase solitária por Therezinha Zerbini, sob o nome de Movimento Feminino de Anistia, e que ganhou projeção somente a partir da adesão do cartunista. “A campanha da anistia ganhou força mesmo com as Cartas da Mãe, que o Henfil escrevia para Dona Maria, com viés social e político. Elas foram publicadas na Revista do Fradim, no Pasquim e na IstoÉ. Aí, sim, o País tomou real conhecimento de que havia 10 mil brasileiros exilados, e aquele se tornou um movimento nacional”, lembra Nilson.

Trajetória de sucessos
Henfil nasceu no dia 5 de fevereiro de 1944 na cidade de Ribeirão das Neves. Fez sua estréia profissional em 1964, na revista Alterosa, onde surgiu a dupla de personagens mais conhecida do artista: os Fradinhos. No ano seguinte, passou a colaborar com o jornal Diário de Minas. Em 1968, mudou-se para o Rio e passou a trabalhar no Jornal dos Sports, onde reinventou termos esportivos e criou as figuras dos mascotes das principais torcidas de futebol do Rio de Janeiro. Em seguida trabalhou no Jornal do Brasil, no Pasquim e nas revistas Realidade, Visão, Placar e O Cruzeiro.
Uma produção tão rica e diversificada que, é claro, deixou marcas em toda uma geração de desenhistas.

“O Henfil nos influenciou mesmo. Falo do grupo que se reunia sempre com ele, não tanto da geração em termos de idade. Ele revolucionou o cartum com seu estilo gráfico e com seu modo de trabalho. Na verdade, eu sentia que éramos da mesma geração. Havia uma outra, mais velha, que era a do pessoal do Pasquim, nossos mestres. Mas o Henfil era mais um colega pra mim. Esse era um diferencial. Não sei se ele era um gênio. Costumamos usar esse termo quando existe algo de inexplicável no modo como a pessoa cria seu trabalho. Isso, em alguma medida, existiu no Henfil, que realmente tinha assombrosa performance produtiva. Mas também em vários outros humoristas brasileiros”, diz o cartunista Laerte.

Jornalista e amigo pessoal de Henfil, Tárik de Souza não vacila um segundo ao definir a principal característica da rica obra do cartunista. “O principal traço de seu trabalho era, exatamente, o traço. Revolucionário, porque era econômico e urgente. Ele conseguia desenhar com uma velocidade impressionante. Vale dizer que um de seus principais personagens, a Graúna, é pouco mais do que um ponto de exclamação”, recorda o crítico musical do extinto Jornal do Brasil. “Mas, olhando em volta, o traço mais marcante da sua obra é o seu amor incondicional pelo País, que ele defendia com a mesma fúria com que atacava as suas mazelas”, pondera.

Ainda no aspecto profissional, Tárik conta que sempre se impressionou com a desenvoltura com que Henfil transitava pelos mais variados meios de comunicação e manifestações artísticas. “Também são características dele a versatilidade e a abrangência de seu talento, já que, além dos cartuns e dos quadrinhos, enveredou pelo teatro, com a Revista do Henfil, pelo cinema, com o filme Tanga – Deu no New York Times, pela tv, com a sua TV-Homem, dentro do programa TV Mulher, na Globo, além de livros Diário de um Cucaracha e Henfil na China. Fez até alguma coisa de música na trilha de peças”, relata o crítico de mpb.

“Pessoalmente, o Henfil cultivava os seus amigos com a mesma intensidade com que os cutucava. Gostava de provocar e fazer as pessoas pensarem e repensarem suas atitudes e posições. Por conta da doença crônica era hiperativo e trabalhava com afinco”, descreve Tárik de Souza, que, além da amizade, dividiu com o Henfil a criação de um de seus mais famosos personagens. “Há tempos queríamos criar um personagem, já que eu também sou fanático por quadrinhos. Numa viagem para Arraial do Cabo, na Região dos Lagos, num fim de semana, surgiu a idéia e o nome do personagem, que refletia o nível de paranóia em que se vivia na época da ditadura militar. Nascia, assim, Ubaldo, O Paranóico” (abaixo).

O prazer de criar um personagem em parceria com o amigo, no entanto, sofreu forte abalo diante de mais uma atrocidade cometida pelo regime, uma das que tiveram maior repercussão dentre as muitas execuções daquela época. “Quando nós voltamos de viagem e compramos os jornais, soubemos que o jornalista Vladimir Herzog, o Vlado, que trabalhava na TV Cultura na
época, tinha sido assassinado nos porões da ditadura, que depois tentou forjar um suicídio inverossímil. Com isso, o nosso personagem ganhou ainda mais força”, conta Tárik de Souza.

Henfil faleceu no dia 4 de janeiro de 1988 após contrair o vírus da aids numa transfusão de sangue, procedimento ao qual era regularmente submetido, em razão da hemofilia. A doença crônica também comprometia a saúde de seus dois irmãos – o sociólogo Herbert de Souza, o Betinho, e o músico Chico Mário.

(Trechos de reportagem publicada originalmente em março de 2009 no Jornal da ABI)

 

A primeira HQ de aventuras do mundo é brasileira!


Um livro importantíssimo para o resgate da obra de Angelo Agostini na História da cultura brasileira é As Aventuras de Nhô-Quim & Zé Caipora, de autoria do pesquisador Athos Eichler Cardoso, cuja primeira edição foi lançada em 2002 dentro da série Edições do Senado Federal. O livro recebeu o Troféu HQ Mix na categoria Valorização dos Quadrinhos e, justamente por isso, o livro, que estava esgotado, teve uma segunda edição lançada em 2005.

O álbum teve um esmerado trabalho de restauração digital para reproduzir com a melhor qualidade possível, os capítulos das primeiras histórias em quadrinhos brasileiras, criadas pelo mestre Agostini. São elas: As Aventuras de Nhô-Quim, ou Impressões de uma Viagem à Corte, (abaixo) publicados em página dupla na Vida Fluminense, e As Aventuras do Zé Caipora, publicadas na Revista Illustrada, em Don Quixote e, numa última fase, em O Malho.
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Folhear este álbum impresso em papel couchê e no formato A4 é voltar no tempo e descobrir um verdadeiro tesouro artístico, criativo e absolutamente pioneiro. É compreender melhor como era o Brasil, sua gente e seus costumes em fins do século 19. A recuperação desses documentos, portanto, é essencial para manter um registro iconográfico fiel desse período.

Publicada a partir de 1869, As Aventuras de Nhô-Quim é considerada a primeira história em quadrinhos brasileira e Agostini foi o quinto artista do mundo a publicar uma hq. A primazia de ser o pioneiro coube a um caricaturista suíço, Rodolphe Topffer, que publicou em 1827 a história Monsieux Vieux Bois. Hoje o autor é considerado o pai dos quadrinhos, apesar de seus traços serem bem primários, quase infantis (como se pode ver clicando no link de seu nome). A história Monsieur Reac, criada em 1948 pelo fotógrafo e desenhista francês Nadar, pseudônimo de Gaspard-Félix Tournachon, é considerada a segunda hq. A dupla endiabrada Max und Moritz, famosa criação do pintor e caricaturista alemão Wilhelm Busch – que inspirou a criação de Os Sobrinhos do Capitão, de Rudolph Dirks –, chegou em 1865 e, dois anos depois Ally Sloper começaria a ser publicada regularmente na revista britânica Judy com desenhos de Charles H. Ross – que também escrevia as histórias – e a elegante arte-final de sua mulher, a cartunista francesa Marie Duval, pseudônimo de Emilie de Tessier.

Uma enorme diferença de 67 anos separa a história em quadrinhos de Topffer da criação do desenhista norte-americano Richard F. Outcault, The Yellow Kid, que era alardeado aos quatro ventos como sendo o primeiro personagem dos quadrinhos (“comics” dos Estados Unidos). Como se pode ver, não é! Yellow Kid só começou a ser publicado em 1894. Até o nosso Zé Caipora, de Angelo Agostini (páginas abaixo), estreou 11 anos antes do garoto amarelo lançado no New York World, de Joseph Pulitzer!

Também não é dos Estados Unidos a primazia de ter lançado a primeira história em quadrinhos de aventuras. Tarzan e Buck Rogers, que os americanos consideram como os primeiros ‘comics’ desse gênero, foram publicados pela primeira vez em janeiro de 1929. Ou seja, 46 anos depois que Angelo Agostini passou a publicar As Aventuras de Zé Caipora.

Quando lançou o primeiro capítulo do seu Zé Caipora, em 27 de janeiro de 1883, Agostini já era um quarentão famoso, dono da principal publicação ilustrada da Corte – a Revista Illustrada – e de um traço refinado. Zé Caipora começou cômico, mas o personagem ganhou nova dimensão criativa e gráfica logo nas primeiras páginas, quando embarca numa aventura pelas desconhecidas selvas brasileiras. A arte seqüencial de Agostini é dinâmica, ágil, elegante e, como linguagem moderna de quadrinhos, antecede em muito tempo seus congêneres Tarzan e Príncipe Valente, ambos de Hal Foster; e Flash Gordon e Jim das Selvas, de Alex Raymond.

Como ressalta Athos Cardoso em seu livro, “cabe a Angelo Agostini o título de avô das tiras de aventura, como precursor da temática e a Zé Caipora, o de primeiro herói brasileiro e universal do gênero”. Realmente, As Aventuras de Zé Caipora pode ser considerada, sem sombra de dúvidas, a primeira história em quadrinhos de aventura do mundo. Que nos desculpe Hal Foster.

Clique nas imagens para ampliá-las em ótima resolução e ver os detalhes do traço de Agostini.

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O Macanudo supimpa chega a SãoPaulo


Demorou (e muito), mas finalmente aconteceu! Depois de receber mais de 80 mil pessoas no Rio de Janeiro, Recife e Brasilia, chegou a vez de São Paulo conhecer de perto o traço macanudo de Liniers. A tão esperada exposição Macanudismo, com originais de um dos mais representativos quadrinistas e artistas gráficos da Argentina já pode ser apreciada desde o dia 4 de julho no Centro Cultural Correios.

Macanudismo apresenta uma notável coleção de 500 tiras selecionadas entre as mais de 4mil publicadas, além de artes originais de contos gráficos, capas de livros e pinturas. Mas, para compensar a demora, a exposição de São Paulo recebe dois trabalhos nunca antes exibidos: uma entrevista ilustrada em quadrinhos com o ator Ricardo Darín (veja no fim desta postagem) e duas sequências do livro Los Sábados Son Como un Globo Rojo.
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Foram três anos de espera desde que esta exposição estreou no Rio de Janeiro, e dois anos, se considerarmos sua passagem por Brasília, a última cidade a receber esta mostra antes da Capital paulista. Segundo a curadora e idealizadora do evento, Bebel Abreu, a exposição não chegou antes a São Paulo por conta do patrocínio. “Ela é financiada através de editais públicos, e São Paulo é muito concorrido. Imagino que tenha sido por isso que ficamos como suplentes na Caixa e também nos Correios. Mas fomos aprovados no edital dos Correios em Brasília, e o êxito da exposição por lá resultou num convite para realizar a mostra também em São Paulo”, explica Bebel.

Mas o êxito da exposição não aconteceu só em Brasília. Por todas as cidades por onde passou, Macanudismo tem sido um sucesso. E em São Paulo não está sendo diferente. Só no dia de abertura quase mil pessoas estiveram no evento. 981, para ser exato. Nos primeiros 10 dias foram mais de 4 mil visitantes. Bebel comemora mais esse sucesso. Uma história que começou em 2009, quando ela foi montar em Buenos Aires a exposição de Pierre Mendell e acabou conhecendo esta, do Liniers, que acontecia na capital Argentina. “Me apaixonei! Queria muito que meus amigos e os brasileiros em geral vissem aquele mar de tiras originais em aquarela. Logo que falei com Liniers desse interesse, não acreditou muito, mas eu insisti e ele se animou.”

Hoje Liniers se diverte com o sucesso em terras tupiniquins. “No meu sonho mais dourado, o máximo que eu imaginava alcançar com minha arte, seria cruzar o rio da Prata e chegar ao Uruguai! Fiquei supercontente!”
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E existe a possibilidade de Macanudismo chegar em outras cidades brasileiras? Bebel acha que é possível. “Fomos contatados em Porto Alegre, e vamos inscrever a exposição ainda nos editais deste ano, mas por enquanto não tem nada certo”. A mostra, cuja realização foi de responsabilidade da Mandacaru Design, fica em São Paulo até o dia 1º de setembro.

A Zarabatana aproveitou o evento para lançar o oitavo livro da série Macanudo, com tarde de autógrafos no dia da abertura da exposição. Liniers autografou centenas de livros fazendo desenhos em cada um deles (veja no álbum de fotos abaixo).

Além da exposição, as pessoas interessadas em quadrinhos podem participar de oficinas e palestras de quadrinistas brasileiros. No dia 25 de julho, Laerte irá falar sobre o ofício do cartunista com a mediação de Gustavo Duarte, quadrinista autor de , Taxi, Monstros!Birds. Haverá também mais duas oficinas: uma com Gustavo Duarte no dia 8 de agosto, e outra com o cartunista Adão Iturrusgarai, no dia 23 de agosto. Um dia antes, porém, Adão irá contar como cria seus personagens e as situações em que eles vivem e falará com o público também de suas experiências como quadrinista. Veja a programação completa dos eventos paralelos, AQUI.

Para mais informações, você pode visitar o site da exposição. Para saber mais sobre Liniers, CLIQUE AQUI.

Veja abaixo um painel com fotos do dia de abertura da exposição Macanudismo, no Centro Cultural Correios. Clique nas imagens para ver as fotos bem maiores.

 

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Uma imersão afetiva e social num ambiente inóspito

Por Rita Braga

Um dos fundamentos da antropologia é manter o olhar ativo como um pêndulo entre o exótico e o familiar. Assim também, literatura e arte, de modo geral, têm suas raízes entre o subjetivo e o universal. Os quadrinhos de A Narradora das Neves – Uma Aventura no País Inuit (La Conteuse des Glaces – Une Aventure en Pays Inuit) brinda o público com uma experiência mais do que agradável.

Os autores, os roteiristas franceses Caroline Roque e Bertrand Escaich – que assinam suas obras sob o pseudônimo de Béka –, já foram premiados por outros trabalhos com o mesmo cunho de imersão cultural, e também lançaram O Apanhador de Nuvens – Uma Aventura no País Dogon (Le Crochet à Nuages – Une Aventure au Pays Dogon) e A Crianças da Sombra – Uma Aventura no País Miao (Les Enfants de l’Ombre – Une Aventure en Pays Miao), todos lançados no Brasil pela Editora Nemo.

Como mais um exemplo da complexidade desse universo tantas vezes subestimado por educadores e leitores, A Narradora das Neves pode desdobrar-se em inúmeras leituras que confrontam culturas em várias instâncias.

No contexto brasileiro é possível que o primeiro estranhamento venha a partir do termo “Inuit”. Entre nós, no uso relativamente cotidiano ou mesmo no senso comum, ainda vigora a palavra “esquimó” para distinguir esse que é um dos povos aborígenes da região do Canadá, nas proximidades do Alasca.

Além do cuidadoso desenho do francês Marko (pseudônimo de Marc Armspach) que já nos convida a uma viagem à parte, na qual as nuances e cores conduzem o olhar sensível pela paisagem, a narrativa em si é uma imersão em outro ethos, outra organização política, afetiva e social. Vale lembrar que a história se passa num dos ambientes mais inóspitos do planeta e ao ver como as personagens se resolvem a cada passo ou palavra, o leitor tem alguns flashes de como a tecnologia, as regras sociais e até a percepção dos eventos mais triviais assumem singularidade.
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O enredo é simples e singelo. Após a experiência de ouvir um viajante que trazia as histórias de outros clãs, a jovem Buniq desafia seu avô – o velho Unioq que naquele momento se preparava para a morte – a acompanhá-la em uma última aventura; ela também quer ser uma contadora de histórias, mas para isso precisará provar que já pode ser responsável pela transmissão dos saberes, dos acontecimentos e símbolos que marcam essas comunidades tão distantes. Na leitura atenta descobrimos temas existenciais sob a perspectiva dentro daquele grupo: como nascer, como crescer, o que é se apaixonar e até o mistério de acreditar em algo ou de simplesmente reconhecer quais são os verdadeiros limites da vida naquele mundo de gelo.

Se é preciso apurar o olhar para enxergar a diversidade de tons e texturas da neve, o livro de Béka e Marko também nos oferece um ponto pouco conhecido de referência cultural que nos orienta e localiza no mundo.

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Caroline Roque nasceu em 1975 em Perpinhã (em francês Perpignan e em catalão Perpinyà), região ao Sul da França que recebeu a distinção de Capital da Cultura Catalã em 2008.  Bertrand Escaich nasceu em 1973 em Saint-Girons, região também ao Sul da França. Ele já escrevia roteiros para quadrinhos quando Caroline venceu um concurso de arte em Toulouse com um de seus romances. Ela, que fazia doutorado em Biologia, abandonou a área para se dedicar exclusivamente à sua verdadeira paixão. Caroline e Bertrand (ou Bertrand e Caroline = Béka) criaram juntos várias séries e já ultrapassaram um milhão de exemplares vendidos.

Marko nasceu em 1969 em Bordeaux e é um desenhista premiado em vários salões de artes e festivais de banda desenhada (Histórias em Quadrinhos) na Europa.

Rita Braga é graduada em Letras pela USP, pós-graduada em Sociopsicologia pela Fesp-SP e especializada em Jornalismo Literário pela ABJL. Com base em sua longa experiência no Núcleo Educativo do Museu da Língua Portuguesa e em outros espaços culturais, atualmente desenvolve uma pesquisa sobre Ações Educativas Sobre Língua Portuguesa na Educação Não Formal. Mantém o blog Notícias da Gaveta.

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Liniers: “Desenhar é estar sozinho entre quatro paredes”


Por Verônica Couto

Imagine um personagem que fosse um artista tal, que, cada vez que tenta falar, só consegue se exprimir por meio de música. E que a música que ele toca são desenhos. Uma equivalência assim de meios poéticos atravessa os diferentes trabalhos de Liniers, desenhista argentino que assina há 13 anos as tiras diárias Macanudo. Seus personagens são as pessoas e as coisas que passam pelas cidades. Flutuam, fazem ou não fazem graça, contam uma história ou não contam nada, têm ou não um nome, muitas vezes são ternos, mas também ácidos, patéticos, críticos. Em todos, um forte sentido de utopia, de ritmo e de experimentação. Na opinião de Liniers, o mundo das hqs está finalmente aberto. Não há mais limite para os desenhos. “Pode-se fazer tudo em hq”, diz.

“Procuro experimentar registros diferentes de humor. É um tipo de humor nem sempre terno, às vezes humor-negro, auto-referencial. De modo que o leitor nunca saiba exatamente para onde vai a idéia”, contou. “No humor, na arte, a surpresa é uma qualidade fundamental para algo interessante. E a maneira de manter a surpresa viva é não ter um modelo de humor.” Isso significa, afirma, respeitar inclusive as tiras que ele mesmo não chega a compreender. “Não entendo, mas é linda, pronto.”

O argentino Ricardo Liniers Siri publica Macanudo desde 2002 no jornal La Nación, na Argentina. É músico, pintor, escritor. Começou a carreira produzindo fanzines, até estrear a tira semanal Bonjour em setembro de 1999, no Página/12, jornal de esquerda editado em Buenos Aires. “Era a época dos experimentos, de atrair a atenção com idéias muito extremas, do humor-negro, do grotesco, violento e terno – queria descobrir como se consegue esse equilíbrio.”

Para ele, um mestre em equilíbrios sutis é Charles Chaplin, autor do clássico Tempos Modernos, filme que vemos o desenhista assistir em uma cena do documentário Liniers, El Trazo Simple de las Cosas (Liniers, o Traço Simples das Coisas), de Franca González. “Chaplin te põe em uma encruzilhada. Você ri, chora, não sabe o que faz. Essa sensação me interessa e me intriga. Se posso desenvolver um humor que tenha uma contracorrente de tristeza, gosto muito.”
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Liniers acredita que as pessoas não compreendem alguns de seus desenhos, porque estão conformadas a um modo determinado de perceber a arte e à expectativa de que as histórias precisam de ponto final, ou as imagens, de interpretações lógicas. “Às vezes, não entendem por que estão buscando algo que não está lá”, diz ele no filme de Franca. “Estamos acostumados a olhar pintura de uma maneira, a escutar música de uma maneira. [Na tirinha], os leitores esperam que haja sempre um chiste. Mas vão se acostumando.”

Natural como um idioma
Na palestra de abertura da exposição no Rio de Janeiro (em 2012), o artista explicou à platéia a importância de desenhar constantemente. “Tem que ficar natural, como uma linguagem que se inventa, como quem dirige um carro. A arte precisa ser natural como um idioma.” Por isso, não existe para ele a possibilidade de não desenhar. “Não há bloqueio criativo. Há histórias péssimas, que se morre de vergonha de mandar para o jornal, e se torce para o dia passar rápido.” Lembra que, sem querer, chegou a enviar três vezes a mesma tira à Redação do La Nación. Não a mesma tira. Na verdade, a mesma idéia, três vezes, sem se lembrar das anteriores: uma cena dos Duendes, comentando: “que buena onda…”
Para quem estuda arte, ensina o desenhista, a primeira providência para ir adiante é superar o medo de errar. E aprender as regras, para desobedecê-las. “Há que se conhecer a maior quantidade de regras, para saber quais se quer romper.”

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Quino, maior influência

Em entrevista à jornalista Verônica Couto, Liniers falou de suas influências de outros artistas, inclusive do cinema, como Woddy Allen e Monty Python. Mas ele destaca, em primeiro lugar, o argentino Quino, que completou 80 anos em 17 de julho. “Na Argentina, aprendemos a ler lendo Mafalda”. Depois, entre muitos, os livros de Tintim, Asterix importados, e o El Eternauta, clássico portenho que conta a história de uma invasão extraterrestre em Buenos Aires, de Héctor Germán Oesterheld, que acabou morto pela ditadura argentina, desaparecido em 1977. Entre os artistas brasileiros ele destacou a impressão que lhe causou a quebra de convenções do trabalho do desenhista Fábio Zimbres. “A liberdade do Fábio era tão extrema. Creio que os Pinguins vieram daí.”

Na opinião de Liniers, não há mais diferença entre hq e literatura. “Para mim, não faz diferença. Maus é igual a Tom Sawyer”, diz, numa referência à hq premiada de Art Spiegelman e ao clássico de Mark Twain. E o momento, acredita, é ideal para fortalecer o movimento de valorização dos quadrinhos. A começar por chamá-los de outro modo. “O problema que temos em alguns países é que a denominação já é um diminutivo: historieta, na Argentina, quadrinhos no Brasil. Na França, olha a diferença: bande dessinée. Mostra mais seriedade. Precisamos acabar com esse complexo de inferioridade da hq.”

Apesar disso, Liniers avalia que nos últimos 20 ou 30 anos diminuiu o preconceito e há cada vez menos quem pense que os quadrinhos precisam ser exclusivamente de humor, aventura, super-herói. “Desde a obra Maus e dos trabalhos de Robert Crumb, pode-se fazer o que quiser. Finalmente, está tudo aberto. Nos anos 1950, ninguém ia pensar em fazer um livro de hq sobre Auschwitz; nos anos 1980, Spiegelman ganhou um Pulitzer. É um movimento dos artistas, das editoras e dos leitores.”

A naturalidade de transpor tudo para tiras ou desenhos levou o autor de Macanudo a tentar outras possibilidades. Numa inovação jornalística, desenvolveu uma série de entrevistas desenhadas, feitas para o La Nación. “Nunca havia visto isso. Posso fazer, tenho que fazer. Então pedi que pudesse entrevistar pessoas que eu admirasse.” Na lista dos entrevistados, o primeiro foi o músico argentino Andrés Calamaro. “Gravo uma entrevista de uma hora. Então preciso degravar e fazer a história com o cerne, o fundamental do que foi dito.”

Música desenhada
Liniers também se apresenta em shows desenhando ao vivo enquanto os músicos tocam no palco. Com o amigo Kevin Johansen e sua banda The Nada, começou ilustrando as canções escondido da platéia, em computador que projetava as imagens. Mas logo passou a trabalhar direto no papel – como é a sua preferência – e, finalmente, no próprio palco. “Eu era patologicamente tímido. No curso secundário, tinha muita dificuldade com as garotas. Ficava pensando, se mal consigo falar, como vou tirar a roupa? Mas, fazendo os desenhos nos shows, já começava a cair a timidez e ascender a megalomania”, brinca. No fim da apresentação, faz gaivotas de papel com os desenhos e as lança para o público. “Como todos os desenhistas, gosto muito de música. Desenhar é estar sozinho entre quatro paredes, precisa de um som. Senão, eu ia me transformar em um monstro.” Ele também toca piano e violão.


Macanudo universal
Liniers pinta com acrílico, que seca rapidamente, usa lápis, nanquim e aquarela nos desenhos. “A pintura a óleo requer muita paciência, demora muito. Tenho a maior admiração por quem faz animação e trabalha em cima daquela idéia durante três anos. Eu não consigo. Preciso que os projetos saiam rápido.”

Para marcar o surgimento da sua Editorial Común, Liniers teve uma idéia muito louca: resolveu desenhar à mão as 5 mil capas do sexto número da antologia de Macanudo. “Eu me senti como Chaplin em Tempos Modernos. No 600º exemplar, ainda pensava: ‘que gênio de vanguarda eu sou’. No 3.000º, ‘não agüento mais, seu idiota’.”

Relação psicótica
Liniers – pseudônimo de Ricardo Siri – nasceu em 1973 em Buenos Aires, filho de um advogado que teve várias atividades, inclusive uma fábrica de pantufas. “Aos 18 anos, fui distribuidor de pantufas em shopping center. Isso não era muito bom para impressionar as garotas. ‘O que você faz? Distribuo pantufas.’ Começou a desenhar no colégio. “Era muito ruim no futebol. Um desses párias, que ficava com só dois ou três amigos, e podia desenhar, enquanto fingia estudar”, lembra. Concluiu o curso de Publicidade, mas não se preocupou em tirar o diploma.


Agora já perdeu a conta de quantos personagens criou. Os Pingüins, Os Duendes (que, na tira do dia da aprovação do casamento igualitário, saíram do armário e foram ao Congresso argentino), o Homem Misterioso, a irresistível dupla Enriqueta e Fellini, Olga, o Coelho, o senhor que traduz os nomes dos filmes, ovelhas existencialistas, pequenos funcionários, patrões terríveis, casais apaixonados. Define como psicótica a sua relação com eles. “Uma vez estava trabalhando: fiz o desenho a lápis, depois com o nanquim, depois com a aquarela. Quando passei o nanquim, soprei e uma gotícula de cuspe caiu sobre o desenho. E eu pedi perdão! Hum, pensei: acabo de pedir perdão a um desenho.”

Na verdade, o controle sobre os personagens não é mesmo absoluto. “Não sei exatamente aonde vão chegar. Os personagens vão-se acomodando, como uma novela que vai se descolando. É linda essa parte. Criar um universo que se pode visitar.”

A palavra em espanhol “macanudo” quer dizer excelente, extraordinário, magnífico. Também em português está registrada como poderoso, muito bom, de prestígio. “Basicamente sou um otimista. Adoro o que eu faço para trabalhar. Quando leio o jornal, ponho-me pessimista e negativo. Daí quero dizer à gente que não está tudo tão terrível. As manchetes são terríveis; mas a gente em volta de tudo é maravilhosa. Quero dizer: olha o que temos de interessante.” Na capa de Macanudo nº3 (lançado na Argentina em 2006), o escritor e desenhista argentino Roberto Fontanarrosa define assim o autor: “O estilo de Liniers é ingênuo, mas – cuidado, desprevenido viajante! –, é a ingenuidade ilusória do leão que devora uma gazela.”

Três preciosidades de Mauricio de Sousa


Há cinquenta anos, os personagens de Mauricio de Sousa já eram bem conhecidos do público, pois suas tiras eram publicadas em mais de 300 jornais em todo Brasil. Também saiam em suplementos infantis como a  Folhinha, que o desenhista ajudou a criar em 1963 juntamente com a jornalista Lenita Miranda de Figueiredo, para a Folha de S.Paulo.

Antes porém, em 1960, eles ganharam as páginas de duas revistas de histórias em quadrinhos – Zaz Traz e Bidu –, lançadas pela Continental, editora capitaneada por Miguel Penteado e Jayme Cortez.

Mas, em 1965 as criações do Pai da Mônica partiram para novos vôos. Foi neste ano que a Editora FTD lançou três livros infantis com diversos personagens do Mauricio. Era a estréia da turminha criada pelo desenhista num outro formato, que iria além dos quadrinhos. Piteco, Penadinho, Astronauta, Zé da Roça e Chico Bento foram os personagens escolhidos para essa nova empreitada.

Além deles,  Niquinho, um personagem totalmente desconhecido hoje em dia, foi o protagonista da história A Caixa da Bondade, que deu nome a um dos livros. O surpreendente é que essa aventura foi desenhada com um traço completamente diferente do estilo de desenho de Mauricio de Sousa (como se pode ver na imagem ao lado).

Cada livro trazia duas historinhas. O já citado A Caixa da Bondade trouxe também uma aventura do Chico Bento. O Astronauta no Planeta dos Homens Sorvete veio acompanhado do Zé da Roça e o Dragão que Não Existia. Já o livro do Piteco veio também com a história do Penadinho Contra o Caçador de Cabeça.

Os livros tinham tratamento luxuoso para a época: capa dura, formato grande (18,6 x 27,7cm) e 68 páginas. Cada página tinha uma grande ilustração e um pequeno texto. A história do Penadinho era um pouco diferente, com textinhos na página da direita e desenhões na esquerda. Além disso, a maioria desses desenhos tinha balões, como nos quadrinhos. 

Infelizmente esses livros são raríssimos e não são facilmente encontrados, mesmo nos melhores sebos. Mas isso promete mudar em setembro. A WMF Martins Fontes vai lançar, num único volume, as seis histórias clássicas, recuperando preciosidades que estavam perdidas no tempo. É um belo presente para Mauricio de Sousa, que faz 80 anos em outubro, e também para seus leitores e admiradores. Pequenos ou grandes.

O livro trará um extra bem bacana: uma entrevista com o criador da Turma da Mônica realizada por Sidney Gusman, responsável pelo planejamento editorial da Mauricio de Sousa Produções.

Sem dúvida, uma boa notícia para os leitores de todas as idades que curtem o trabalho de Mauricio de Sousa e, especialmente, para aqueles que o acompanham desde a década de 50.

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Lavagem: um soco no estômago


Resumir Lavagem, do consagrado desenhista e roteirista (e também cineasta) Shiko, como uma história de terror é, no mínimo, deixar de lado toda a pungente crítica social inerente à obra.

O roteiro nos mostra um dia na vida de um casal que vive (vive?) num casebre afastado dentro de um manguezal. O marido, uma pessoa grotesca, cria e fala com os porcos, e acha que a mulher o trai toda vez que vai à igreja. Ela é evangélica e treme quando o pastor grita nos cultos: “Tem hora que parece que é deus passando a mão em mim”, confessa a certa altura. Eles vivem no limite da sanidade, ou da insanidade.

Todos os dias, à noite, ela liga a televisão para ouvir a pregação do pastor, prepara o jantar, pede para o marido largar os porcos e entrar em casa antes que a maré suba. É uma vida de extrema pobreza, repressão e fanatismo religioso. Coincidentemente (ou não), nessa noite em particular, eles recebem a visita de um pastor que ficou preso no mangue por causa da maré alta, justamente quando ele ia pregar na cidade. Pede abrigo e se dispõe a ler “um pouco da palavra”.
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Ela aceita, contrariando o marido brutamontes. O pastor misterioso começa a ler a primeira carta de Paulo aos Coríntios, a partir do versículo 25 do primeiro capítulo, que descreve um deus arrogante como uma criança cheia de vontades, “para que ninguém se vanglorie diante dele”.

Mais do que a violência humilhante da condição humana mostrada até então, o que se vê a seguir é o resultado do conflito de uma verdadeira lavagem cerebral repressora que a mulher é exposta diariamente e que se contrapõem à brutal realidade de uma vida sem esperanças. Alucinação? Fanatismo? Assombração? Shiko nos mostra como a redenção pode ser tão assustadora quanto a loucura. Um verdadeiro soco no estômago.

Responsável pela edição de luxo, a Editora Mino caprichou no álbum de 72 páginas e capa dura, impresso em preto e branco, no excelente papel pólen bold, que valoriza o traço forte do artista. Lavagem foi baseada num curta-metragem homônimo dirigido pelo próprio desenhista, lançado em 2011 pela cooperativa de “curtas de baixíssimo orçamento da Paraíba”, Filmes a Granel. Mas a história em quadrinhos ganha novas nuances, se comparada ao filme.

Shiko, você já deve conhecer: ele é o responsável por obras-primas independentes como O Azul Indiferente do CéuTalvez Seja Mentira, além da adaptação para os quadrinhos do romance O Quinze, de Raquel de Queiroz, para a editora Ática, e da releitura do personagem Piteco, de Mauricio de Sousa, em Ingá, para o selo selo Graphic MSP. E se você não conhece o trabalho desse artista, comece já a ler sua obra.

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A mitologia de Alex Ross


Quem gosta de quadrinhos, dos personagens da DC e, claro, de Alex Ross, não pode deixar de ter o livro importado Mythology – The DC Comics Art of Alex Ross. Até para quem gosta da arte de desenhar este é um livro altamente recomendado. Visualmente exuberante, suas 320 páginas coloridas trazem reproduções de centenas de pinturas, rafes e leiautes do grande artista, fotografados por Geoff Spear, com direção de arte e textos de Chip Kidd. Há também um texto de introdução do diretor de cinema M.Night Shyamalan (de O Sexto Sentido), onde ele conta como trabalho de Ross o ajudou no filme Corpo Fechado (Unbreakable). Uma das versões do livro (a que recomendo) é limitada e vem com uma capa dura tripla que se desdobra num grande painel com uma pintura do mestre (clique na imagem abaixo para ver mais detalhes, ou aqui para ver outra imagem).

A influência dos quadrinhos na infância do desenhista pode ser conferida no início do livro, onde são publicados alguns desenhos que ele fez com 3, 7, 10 e 12 anos de idade. Além disso há uma pequena biografia e, em seguida, capítulos com os principais personagens da DC: Superman, Batman, Mulher-Maravilha (Wonder Woman), Capitão Marvel/Shazam!, Sociedade da Justiça, Liga da Justiça e todos os seus integrantes, além de alguns personagens de Hanna-Barbera (empresa pertencente à Warner, tal qual a DC), além de diversos trabalhos do autor.

Há também um capítulo onde é mostrado o passo-a-passo do processo de trabalho de Alex Ross, incluindo a criação de uma história em quadrinhos inédita de oito páginas, que também está publicada. Ou seja, se você quer ter uma visão completa do trabalho magnífico de Alex Ross, este livro é fundamental.

Para adquirir o livro Mythology – The DC Comics Art of Alex Ross você pode visitar o site da Amazon e ver se ele ainda está disponível, nem que seja usado. Vale a pena!

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Os desenhos publicados aqui foram digitalizados do livro, como a imagem do alto, que abre esta postagem. Ela é uma recriação que Alex Ross fez para a revista Wizard nº 89 (de janeiro de 1999) da famosa capa da edição especial Superman vs. The Amazing Spider-Man, publicada originalmente em 1976.

O desenho acima, do Adam Strange, é uma recriação para a capa da revista DC Comics Presents Mystery in Space #1 (de 2005) a partir da capa original de Carmine Infantino e Murphy Anderson para a revista Mystery in Space #82 (de março de 1963).

O desenho do Batman (acima) foi feito para o álbum especial Guerra ao Crime (War on Crime), enquanto o do Super-Homem, voando sobre o Rio de Janeiro, foi feito para outro álbum especial, Paz na Terra (Peace on Earth). Já o do Capitão Marvel (mais abaixo) foi extraído do álbum Shazam! O Poder da Esperança (Power of Hope), todos lançados no Brasil pela Editora Abril.


Abaixo, o Lanterna Verde que aparece no álbum Liberdade e Justiça (Liberty and Justice), publicado pela Panini no Brasil.

Saiba mais sobre o primeiro crossover Marvel/DC lendo o texto A batalha do século passado.

Para ler mais sobre Alex Ross, clique aqui. Para ver mais alguns de seus desenhos, clique aqui.

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O Bruce Lee de Antonino


Antonino Homobono Balieiro foi um dos maiores desenhistas de quadrinhos deste país tão injusto com os seus artistas. Se você quiser saber mais sobre esse mestre do desenho, clique no nome dele para ler uma postagem em sua homenagem.

O desenho acima, que ele desenhou para uma história do Drácula, foi colorizado a partir de um original em preto e branco. Ele foi publicado, originalmente, na revista de quadrinhos Drácula, que era lançada pelo selo de terror Capitão Mistério, da extinta Bloch Editores. O número 8 dessa revista, de 1983, trazia a história A Viagem do Demônio e narrava o improvável encontro entre o mestre das trevas e um certo mestre do kung fu chamado Bruce Ling, que era muito (mas muito mesmo) parecido com Bruce Lee, como comprova o desenho. A história era, no mínimo, bem criativa. Antonino se divertia contando-a, pois era uma das preferidas dele.

Se você quiser ter esse desenho na tela de seu computador, clique nele para fazer o download do Bruce Lee cover (mas ninguém vai saber que não é o Bruce Lee, quando ele estiver na tela de seu computador). Para ler mais sobre Antonino e ver outros desenhos dele, CLIQUE AQUI.

Hurulla volta a atacar

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Cada vez mais o Catarse se torna uma ótima ferramenta para que quadrinistas consigam publicar seus trabalhos. É o que fez Clayton InLoco quando buscou essa ferramenta de financiamento coletivo, comumente chamado de ‘crowdfunding’, para publicar seu primeiro álbum, Hurulla. Agora ele recorre ao Catarse novamente para lançar o segundo álbum com o seu personagem. E é bem fácil colaborar com o projeto. Por exemplo, ao decidir apoiar o quadrinista com apenas R$25, você ganha o álbum que será lançado, sua versão em pdf, além de ter o seu nome publicado nos agradecimentos. Mas, se sua opção for doar R$40, você irá ganhar, além disso tudo, um poster bacana e o primeiro volume com as aventuras do herói. Mas há outros prêmios, dependendo de quanto for a doação. Você pode até ganhar uma página original da arte desse álbum. Se você curte guardar originais, essa é uma ótima opção. Então, para colaborar e saber mais detalhes da obra, visite a página do projeto no Catarse, CLICANDO AQUI.

Ajude também a divulgar o projeto entre seus amigos no Facebook, divulgando a página do Hurulla nessa rede social: https://www.facebook.com/hurulla
Ele precisa de R$13.500 para lançar o segundo álbum. Vamos ajudá-lo a chegar ao seu objetivo?

Billy Batson grita “Shazam!”

Captain Marvel
O Capitão Marvel foi criado em 1939 pelo desenhista C. C. Beck e pelo roteirista Bill Parker e publicado pela Fawcett Comics até 1953. Sua primeira aparição aconteceu no segundo número da revista Whiz Comics, de fevereiro de 1940. Ou seja, apenas oito meses depois de o Super-Homem fazer sua estréia na revista Action Comics número 1, de junho de 1938. Mas era uma ideia criativa que cativou a garotada que lia os comics americanos, afinal eles se identificavam com o adolescente Billy Batson que, ao gritar a palavra “Shazam!”, se transformava num homem superpoderoso, que podia voar e era indestrutível. O Capitão Marvel irrita a National Comics (atual DC Comics), que move um processo acusando a concorrente Fawcett de plágio. A briga se arrastou por dezesseis anos na justiça, até que em 1953 a editora parou de publicar o personagem.

O Capitão Marvel fez tanto sucesso que em 1941 e 1942 surgiram, respectivamente, mais dois super-heróis que fariam parte da “Família Marvel”: o Capitão Marvel Jr. e Mary Marvel. Freddy Freeman, o alter ego do Capitão Marvel Jr., era deficiente físico e precisava de muletas para andar. No Brasil, o Capitão Marvel foi publicado em revista própria durante os anos 1960 pela Rio Gráfica e Editora (RGE).

O batmóvel de Bob Kane

Batman 241: uma edição histórica

Batman 241- Desenho de Neal Adams
Estes cinco papeis de parede foram feitos a partir de imagens publicadas na revista Batman 241, da DC Comics, publicada em maio de 1972 nos Estados Unidos. O wallpaper acima foi feito a partir da capa desenhada por Neal Adams. Os três de baixo foram feitos a partir das páginas da principal história da revista, que foi desenhada por Irv Novick e Dick Giordano.
At Dawn Dies Mary MacGuffin!
At Dawn Dies Mary MacGuffin!
At Dawn Dies Mary MacGuffin!
O wallpaper abaixo é a representação do batmóvel desenhado pelo criador do Batman, Bob Kane. Para saber mais sobre esta edição da revista Batman e ver estas páginas completas, exatamente como foram publicadas originalmente (incluindo a capa), visite este link.
O batmóvel de Bob Kane
Para baixar estes papéis de parede, basta clicar em cada um deles, e a imagem aparecerá em ótima resolução para você usar em seu computador.

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A turma da Mônica na Suécia


Você conhece Glada Gänget? Os personagens são absolutamente familiares, mas o nome, não. E agora? Nada como consultar o Google Translate para nos ajudar nessa missão nada impossível para descobrirmos que Glada Gänget na mais é do que a tradução de Gang Feliz, ou Turma Feliz! Este é o nome dado para a Turma da Mônica na Suécia. O primeiro número da revista foi publicada há 38 anos, em 1977.

Também é muito legal conhecer o nome que os suecos deram para alguns dos personagens da turminha criada pelo nosso Mauricio de Sousa: Monica é Monika (essa é fácil); Cebolinha é Robban; Cascão é Smutsus; Magali é Pysan; Bidu é Bitsy; Floquinho é Moppen; o elefante mais amado do Brasil é Flumbo; e o Horácio é chamado de… Amfibio.

Para matar saudades do início da turminha, publicamos acima a capa do segundo número da revista Mônica, que chegou às bancas do Brasil em junho de 1970, lançada pela Editora Abril (que estava completando 20 anos de sua fundação).

Ao lado, Cebolinha e Cascão em um dos diversos momentos “sem noção” do galoto que tloca os “eles” pelos “eles”. E abaixo, um momento romântico entre Jotalhão e Rita Najura. O amor é lindo!

[Todas as imagens podem ser ampliadas em ótima resolução: basta clicar nelas.]

Aproveite que você está lendo este texto e CLIQUE AQUI para ler uma ótima entrevista que Mauricio de Sousa concedeu ao Jornal da ABI em 2012, nesta que era uma publicação mensal distribuída para jornalistas.

Sargento Rock não é moleza


Sargento Rock
 é um personagem criado pelos talentosos Robert Kanigher e Joe Kubert, cujas aventuras eram passadas durante a 2ª Grande Guerra Mundial. O personagem foi publicado pela primeira vez em 1959, apenas 14 anos depois de terminada a guerra. Em janeiro desse ano ele foi apresentado aos leitores da revista G.I. Combat #68 com o nome de “The Rock”, simplesmente. O personagem retornou três meses depois na revista  Our Army at War #81, lançada em abril. Mas foi somente na edição de junho dessa revista, no número 83, que o Sgt. Rock aparece com todas as características que o tornariam mundialmente conhecido.