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Liniers: “Desenhar é estar sozinho entre quatro paredes”


Por Verônica Couto

Imagine um personagem que fosse um artista tal, que, cada vez que tenta falar, só consegue se exprimir por meio de música. E que a música que ele toca são desenhos. Uma equivalência assim de meios poéticos atravessa os diferentes trabalhos de Liniers, desenhista argentino que assina há 13 anos as tiras diárias Macanudo. Seus personagens são as pessoas e as coisas que passam pelas cidades. Flutuam, fazem ou não fazem graça, contam uma história ou não contam nada, têm ou não um nome, muitas vezes são ternos, mas também ácidos, patéticos, críticos. Em todos, um forte sentido de utopia, de ritmo e de experimentação. Na opinião de Liniers, o mundo das hqs está finalmente aberto. Não há mais limite para os desenhos. “Pode-se fazer tudo em hq”, diz.

“Procuro experimentar registros diferentes de humor. É um tipo de humor nem sempre terno, às vezes humor-negro, auto-referencial. De modo que o leitor nunca saiba exatamente para onde vai a idéia”, contou. “No humor, na arte, a surpresa é uma qualidade fundamental para algo interessante. E a maneira de manter a surpresa viva é não ter um modelo de humor.” Isso significa, afirma, respeitar inclusive as tiras que ele mesmo não chega a compreender. “Não entendo, mas é linda, pronto.”

O argentino Ricardo Liniers Siri publica Macanudo desde 2002 no jornal La Nación, na Argentina. É músico, pintor, escritor. Começou a carreira produzindo fanzines, até estrear a tira semanal Bonjour em setembro de 1999, no Página/12, jornal de esquerda editado em Buenos Aires. “Era a época dos experimentos, de atrair a atenção com idéias muito extremas, do humor-negro, do grotesco, violento e terno – queria descobrir como se consegue esse equilíbrio.”

Para ele, um mestre em equilíbrios sutis é Charles Chaplin, autor do clássico Tempos Modernos, filme que vemos o desenhista assistir em uma cena do documentário Liniers, El Trazo Simple de las Cosas (Liniers, o Traço Simples das Coisas), de Franca González. “Chaplin te põe em uma encruzilhada. Você ri, chora, não sabe o que faz. Essa sensação me interessa e me intriga. Se posso desenvolver um humor que tenha uma contracorrente de tristeza, gosto muito.”
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Liniers acredita que as pessoas não compreendem alguns de seus desenhos, porque estão conformadas a um modo determinado de perceber a arte e à expectativa de que as histórias precisam de ponto final, ou as imagens, de interpretações lógicas. “Às vezes, não entendem por que estão buscando algo que não está lá”, diz ele no filme de Franca. “Estamos acostumados a olhar pintura de uma maneira, a escutar música de uma maneira. [Na tirinha], os leitores esperam que haja sempre um chiste. Mas vão se acostumando.”

Natural como um idioma
Na palestra de abertura da exposição no Rio de Janeiro (em 2012), o artista explicou à platéia a importância de desenhar constantemente. “Tem que ficar natural, como uma linguagem que se inventa, como quem dirige um carro. A arte precisa ser natural como um idioma.” Por isso, não existe para ele a possibilidade de não desenhar. “Não há bloqueio criativo. Há histórias péssimas, que se morre de vergonha de mandar para o jornal, e se torce para o dia passar rápido.” Lembra que, sem querer, chegou a enviar três vezes a mesma tira à Redação do La Nación. Não a mesma tira. Na verdade, a mesma idéia, três vezes, sem se lembrar das anteriores: uma cena dos Duendes, comentando: “que buena onda…”
Para quem estuda arte, ensina o desenhista, a primeira providência para ir adiante é superar o medo de errar. E aprender as regras, para desobedecê-las. “Há que se conhecer a maior quantidade de regras, para saber quais se quer romper.”

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Quino, maior influência

Em entrevista à jornalista Verônica Couto, Liniers falou de suas influências de outros artistas, inclusive do cinema, como Woddy Allen e Monty Python. Mas ele destaca, em primeiro lugar, o argentino Quino, que completou 80 anos em 17 de julho. “Na Argentina, aprendemos a ler lendo Mafalda”. Depois, entre muitos, os livros de Tintim, Asterix importados, e o El Eternauta, clássico portenho que conta a história de uma invasão extraterrestre em Buenos Aires, de Héctor Germán Oesterheld, que acabou morto pela ditadura argentina, desaparecido em 1977. Entre os artistas brasileiros ele destacou a impressão que lhe causou a quebra de convenções do trabalho do desenhista Fábio Zimbres. “A liberdade do Fábio era tão extrema. Creio que os Pinguins vieram daí.”

Na opinião de Liniers, não há mais diferença entre hq e literatura. “Para mim, não faz diferença. Maus é igual a Tom Sawyer”, diz, numa referência à hq premiada de Art Spiegelman e ao clássico de Mark Twain. E o momento, acredita, é ideal para fortalecer o movimento de valorização dos quadrinhos. A começar por chamá-los de outro modo. “O problema que temos em alguns países é que a denominação já é um diminutivo: historieta, na Argentina, quadrinhos no Brasil. Na França, olha a diferença: bande dessinée. Mostra mais seriedade. Precisamos acabar com esse complexo de inferioridade da hq.”

Apesar disso, Liniers avalia que nos últimos 20 ou 30 anos diminuiu o preconceito e há cada vez menos quem pense que os quadrinhos precisam ser exclusivamente de humor, aventura, super-herói. “Desde a obra Maus e dos trabalhos de Robert Crumb, pode-se fazer o que quiser. Finalmente, está tudo aberto. Nos anos 1950, ninguém ia pensar em fazer um livro de hq sobre Auschwitz; nos anos 1980, Spiegelman ganhou um Pulitzer. É um movimento dos artistas, das editoras e dos leitores.”

A naturalidade de transpor tudo para tiras ou desenhos levou o autor de Macanudo a tentar outras possibilidades. Numa inovação jornalística, desenvolveu uma série de entrevistas desenhadas, feitas para o La Nación. “Nunca havia visto isso. Posso fazer, tenho que fazer. Então pedi que pudesse entrevistar pessoas que eu admirasse.” Na lista dos entrevistados, o primeiro foi o músico argentino Andrés Calamaro. “Gravo uma entrevista de uma hora. Então preciso degravar e fazer a história com o cerne, o fundamental do que foi dito.”

Música desenhada
Liniers também se apresenta em shows desenhando ao vivo enquanto os músicos tocam no palco. Com o amigo Kevin Johansen e sua banda The Nada, começou ilustrando as canções escondido da platéia, em computador que projetava as imagens. Mas logo passou a trabalhar direto no papel – como é a sua preferência – e, finalmente, no próprio palco. “Eu era patologicamente tímido. No curso secundário, tinha muita dificuldade com as garotas. Ficava pensando, se mal consigo falar, como vou tirar a roupa? Mas, fazendo os desenhos nos shows, já começava a cair a timidez e ascender a megalomania”, brinca. No fim da apresentação, faz gaivotas de papel com os desenhos e as lança para o público. “Como todos os desenhistas, gosto muito de música. Desenhar é estar sozinho entre quatro paredes, precisa de um som. Senão, eu ia me transformar em um monstro.” Ele também toca piano e violão.


Macanudo universal
Liniers pinta com acrílico, que seca rapidamente, usa lápis, nanquim e aquarela nos desenhos. “A pintura a óleo requer muita paciência, demora muito. Tenho a maior admiração por quem faz animação e trabalha em cima daquela idéia durante três anos. Eu não consigo. Preciso que os projetos saiam rápido.”

Para marcar o surgimento da sua Editorial Común, Liniers teve uma idéia muito louca: resolveu desenhar à mão as 5 mil capas do sexto número da antologia de Macanudo. “Eu me senti como Chaplin em Tempos Modernos. No 600º exemplar, ainda pensava: ‘que gênio de vanguarda eu sou’. No 3.000º, ‘não agüento mais, seu idiota’.”

Relação psicótica
Liniers – pseudônimo de Ricardo Siri – nasceu em 1973 em Buenos Aires, filho de um advogado que teve várias atividades, inclusive uma fábrica de pantufas. “Aos 18 anos, fui distribuidor de pantufas em shopping center. Isso não era muito bom para impressionar as garotas. ‘O que você faz? Distribuo pantufas.’ Começou a desenhar no colégio. “Era muito ruim no futebol. Um desses párias, que ficava com só dois ou três amigos, e podia desenhar, enquanto fingia estudar”, lembra. Concluiu o curso de Publicidade, mas não se preocupou em tirar o diploma.


Agora já perdeu a conta de quantos personagens criou. Os Pingüins, Os Duendes (que, na tira do dia da aprovação do casamento igualitário, saíram do armário e foram ao Congresso argentino), o Homem Misterioso, a irresistível dupla Enriqueta e Fellini, Olga, o Coelho, o senhor que traduz os nomes dos filmes, ovelhas existencialistas, pequenos funcionários, patrões terríveis, casais apaixonados. Define como psicótica a sua relação com eles. “Uma vez estava trabalhando: fiz o desenho a lápis, depois com o nanquim, depois com a aquarela. Quando passei o nanquim, soprei e uma gotícula de cuspe caiu sobre o desenho. E eu pedi perdão! Hum, pensei: acabo de pedir perdão a um desenho.”

Na verdade, o controle sobre os personagens não é mesmo absoluto. “Não sei exatamente aonde vão chegar. Os personagens vão-se acomodando, como uma novela que vai se descolando. É linda essa parte. Criar um universo que se pode visitar.”

A palavra em espanhol “macanudo” quer dizer excelente, extraordinário, magnífico. Também em português está registrada como poderoso, muito bom, de prestígio. “Basicamente sou um otimista. Adoro o que eu faço para trabalhar. Quando leio o jornal, ponho-me pessimista e negativo. Daí quero dizer à gente que não está tudo tão terrível. As manchetes são terríveis; mas a gente em volta de tudo é maravilhosa. Quero dizer: olha o que temos de interessante.” Na capa de Macanudo nº3 (lançado na Argentina em 2006), o escritor e desenhista argentino Roberto Fontanarrosa define assim o autor: “O estilo de Liniers é ingênuo, mas – cuidado, desprevenido viajante! –, é a ingenuidade ilusória do leão que devora uma gazela.”

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