Gastão, o vomitador


Antes que o aniversário do Jaguar termine, vale a pena lembrar da série Gastão, o Vomitador, criação inesquecível do cartunista que teve apenas nove tiras publicadas no Pasquim. Não é que os leitores reclamaram do personagem, que era um tanto quanto nojento. Afinal, não se via personagens de histórias em quadrinhos vomitando nas revistas. O problema é que Jaguar não gostava de desenhar histórias em quadrinhos. Não tinha saco, como ele mesmo disse  (leia entrevista com o Jaguar publicada no Jornal da ABI a partir da página 30). O negócio dele era cartum. Mas Gastão, o Vomitador foi tão marcante que transformou a onomatopéia BLUAHH num clássico!

O Jaguar 69 do Millôr


Millôr Fernandes, que tem um nome a zelar, fez uma bela homenagem a seu amigo Jaguar quando publicou na revista Veja o texto reproduzido abaixo. Isso aconteceu em 1969, ano sagrado da fundação do Pasquim. Hoje, Jaguar faz aniversário. Isso mesmo… pode cantar “Parabéns pra Você!” O cartunista que tem o traço mais brasileiro da imprensa brasileira faz aniversário de 4 em 4 anos. Por isso mesmo, ele acaba de completar 20 aninhos! Para homenageá-lo, vamos lembrar do texto do Millôr (que também já foi publicado no livro É Pau Puro! O Jaguar do Pasquim, que trazia uma seleção de cartuns do grande desenhista de humor publicados no Pasquim.

Retrato 3 x 4 de um amigo 6 x 9

Jaguar tem dois lados – o lado de lá de tarde bate sol, por isso é que sua fisionomia é toda contra-luz. Movimenta-se em vários sentidos, três deles completamente neutros, nem por isso, porém, impraticáveis. Usa bigode, mas não se vê. É patriota contratado esperando efetivação. Com as suas mãos conseguiu executar uma terceira que usa para os melhores desenhos que faz. É casado mas não acredita no inferno. Às sextas-feiras, às vezes entrando pelo sábado – é apocalíptico. Em dias de alegria fica triste mas esconde isso sob tal tumulto que sempre recebe o troféu Alegria da Festa. Tem uma filha cor-de-rosa e um filho verde nascido misteriosamente em Piraçununga, alguns anos atrás. Agora, quanto ao câncer, é a favor. Seus melhores amigos estão nas linhas transversais, mas não se importa; de vez em quando até desenha um com aquela espada. Pratica-se diariamente, por isso é que é tanto. Tem degraus, setenta e oito ao todo, mas está pensando em instalar uma elevatória. Grande coração, as dimensões do qual têm sido até exageradas – pois não transplanta. Da ponta do pé ao topo da cabeça vai toda a altura, mas nem isso o diminui. Reto quando a prumo, se curva todo ao menor elogio contrário. Tem olhos azuis, com os quais procura disfarçar seus estranhos óculos redondos. Modelo de pai, tem sido escolhido sempre como mau exemplo. Sua diversão preferida é ficar todo torcido diante dos espelhos que distorcem e fundir a cuca dos espelhos. Qualquer balança, porém, logo o desequilibra. No Banco do Brasil é considerado um funcionário bárbaro porque por onde ele passa não cresce grana. Se levanta com o sol: o difícil é ir deitar lá em cima da montanha da Gávea às quatro da manhã, depois de um pifa. Não fuma, mas, zangado, deita fumaça. Túnel rebouças foi apenas durante quinze dias pois detesta ar encanado. Quanto a Ipanema, diz sempre com orgulho: “I am a banda”. Tem trinta e seis anos, o que fica muito bem na sua idade. Como o vidro, é eternamente jovem a não ser que o arranhem. Embaça um pouco, em dias de maresia interior, mas basta uma flanela que de novo brilha e reflete. Costumo lhe dizer: “Com teu talento, Jaguar, eu não estaria aqui. Estaria em cana, nos Estados Unidos”.

As charges que ilustram esta postagem foram publicadas nos anos 70. Todas elas podem ser ampliadas em boa resolução. Basta dar um clique nelas. Quer ler mais sobre o Jaguar? Então, CLIQUE AQUI.