Lavagem: um soco no estômago


Resumir Lavagem, do consagrado desenhista e roteirista (e também cineasta) Shiko, como uma história de terror é, no mínimo, deixar de lado toda a pungente crítica social inerente à obra.

O roteiro nos mostra um dia na vida de um casal que vive (vive?) num casebre afastado dentro de um manguezal. O marido, uma pessoa grotesca, cria e fala com os porcos, e acha que a mulher o trai toda vez que vai à igreja. Ela é evangélica e treme quando o pastor grita nos cultos: “Tem hora que parece que é deus passando a mão em mim”, confessa a certa altura. Eles vivem no limite da sanidade, ou da insanidade.

Todos os dias, à noite, ela liga a televisão para ouvir a pregação do pastor, prepara o jantar, pede para o marido largar os porcos e entrar em casa antes que a maré suba. É uma vida de extrema pobreza, repressão e fanatismo religioso. Coincidentemente (ou não), nessa noite em particular, eles recebem a visita de um pastor que ficou preso no mangue por causa da maré alta, justamente quando ele ia pregar na cidade. Pede abrigo e se dispõe a ler “um pouco da palavra”.
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Ela aceita, contrariando o marido brutamontes. O pastor misterioso começa a ler a primeira carta de Paulo aos Coríntios, a partir do versículo 25 do primeiro capítulo, que descreve um deus arrogante como uma criança cheia de vontades, “para que ninguém se vanglorie diante dele”.

Mais do que a violência humilhante da condição humana mostrada até então, o que se vê a seguir é o resultado do conflito de uma verdadeira lavagem cerebral repressora que a mulher é exposta diariamente e que se contrapõem à brutal realidade de uma vida sem esperanças. Alucinação? Fanatismo? Assombração? Shiko nos mostra como a redenção pode ser tão assustadora quanto a loucura. Um verdadeiro soco no estômago.

Responsável pela edição de luxo, a Editora Mino caprichou no álbum de 72 páginas e capa dura, impresso em preto e branco, no excelente papel pólen bold, que valoriza o traço forte do artista. Lavagem foi baseada num curta-metragem homônimo dirigido pelo próprio desenhista, lançado em 2011 pela cooperativa de “curtas de baixíssimo orçamento da Paraíba”, Filmes a Granel. Mas a história em quadrinhos ganha novas nuances, se comparada ao filme.

Shiko, você já deve conhecer: ele é o responsável por obras-primas independentes como O Azul Indiferente do CéuTalvez Seja Mentira, além da adaptação para os quadrinhos do romance O Quinze, de Raquel de Queiroz, para a editora Ática, e da releitura do personagem Piteco, de Mauricio de Sousa, em Ingá, para o selo selo Graphic MSP. E se você não conhece o trabalho desse artista, comece já a ler sua obra.

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