Filed under: Comics - Quadrinhos, Desenhistas, Jaguar | Tags: BLUAHH, Gastão Vomitador, onomatopéia, Pasquim

Antes que o aniversário do Jaguar termine, vale a pena lembrar da série Gastão, o Vomitador, criação inesquecível do cartunista que teve apenas nove tiras publicadas no Pasquim. Não é que os leitores reclamaram do personagem, que era um tanto quanto nojento. Afinal, não se via personagens de histórias em quadrinhos vomitando nas revistas. O problema é que Jaguar não gostava de desenhar histórias em quadrinhos. Não tinha saco, como ele mesmo disse (leia entrevista com o Jaguar publicada no Jornal da ABI a partir da página 30). O negócio dele era cartum. Mas Gastão, o Vomitador foi tão marcante que transformou a onomatopéia BLUAHH num clássico!

Filed under: Desenhistas, Jaguar | Tags: É Pau Puro, Millôr Fernandes, Pasquim, Veja

Millôr Fernandes, que tem um nome a zelar, fez uma bela homenagem a seu amigo Jaguar quando publicou na revista Veja o texto reproduzido abaixo. Isso aconteceu em 1969, ano sagrado da fundação do Pasquim. Hoje, Jaguar faz aniversário. Isso mesmo… pode cantar “Parabéns pra Você!” O cartunista que tem o traço mais brasileiro da imprensa brasileira faz aniversário de 4 em 4 anos. Por isso mesmo, ele acaba de completar 20 aninhos! Para homenageá-lo, vamos lembrar do texto do Millôr (que também já foi publicado no livro É Pau Puro! O Jaguar do Pasquim, que trazia uma seleção de cartuns do grande desenhista de humor publicados no Pasquim.

Retrato 3 x 4 de um amigo 6 x 9
Jaguar tem dois lados – o lado de lá de tarde bate sol, por isso é que sua fisionomia é toda contra-luz. Movimenta-se em vários sentidos, três deles completamente neutros, nem por isso, porém, impraticáveis. Usa bigode, mas não se vê. É patriota contratado esperando efetivação. Com as suas mãos conseguiu executar uma terceira que usa para os melhores desenhos que faz. É casado mas não acredita no inferno. Às sextas-feiras, às vezes entrando pelo sábado – é apocalíptico.
Em dias de alegria fica triste mas esconde isso sob tal tumulto que sempre recebe o troféu Alegria da Festa. Tem uma filha cor-de-rosa e um filho verde nascido misteriosamente em Piraçununga, alguns anos atrás. Agora, quanto ao câncer, é a favor. Seus melhores amigos estão nas linhas transversais, mas não se importa; de vez em quando até desenha um com aquela espada. Pratica-se diariamente, por isso é que é tanto. Tem degraus, setenta e oito ao todo, mas está pensando em instalar uma elevatória. Grande coração, as dimensões do qual têm sido até exageradas – pois não transplanta. Da ponta do pé ao topo da cabeça vai toda a altura, mas nem isso o diminui. Reto quando a prumo, se curva todo ao menor elogio contrário. Tem olhos azuis, com os quais procura disfarçar seus estranhos óculos redondos. Modelo de pai, tem sido escolhido sempre como mau exemplo. Sua diversão preferida é ficar todo torcido diante dos espelhos que distorcem e fundir a cuca dos espelhos. Qualquer balança, porém, logo o desequilibra. No Banco do Brasil é considerado um funcionário bárbaro porque por onde ele passa não cresce grana. Se levanta com o sol: o difícil é ir deitar lá em cima da montanha da Gávea às quatro da manhã, depois de um pifa. Não fuma, mas, zangado, deita fumaça. Túnel rebouças foi apenas durante quinze dias pois detesta ar encanado. Quanto a Ipanema, diz sempre com orgulho: “I am a banda”. Tem trinta e seis anos, o que fica muito bem na sua idade. Como o vidro, é eternamente jovem a não ser que o arranhem. Embaça um pouco, em dias de maresia interior, mas basta uma flanela que de novo brilha e reflete. Costumo lhe dizer: “Com teu talento, Jaguar, eu não estaria aqui. Estaria em cana, nos Estados Unidos”.

As charges que ilustram esta postagem foram publicadas nos anos 70. Todas elas podem ser ampliadas em boa resolução. Basta dar um clique nelas. Quer ler mais sobre o Jaguar? Então, CLIQUE AQUI.

Filed under: Comics - Quadrinhos, Desenhistas, Mauricio de Sousa, Quadrinhos Brasileiros, Turma da Mônica | Tags: Amfibio, Bidu, Bitsy, Cascão, Cebolinha, Floquinho, Flumbo, Glada Gänget, Horácio, Jotalhão, Magali, Monica, Monika, Moppen, Pysan, Robban, Smutsus

Hoje é o Dia do Quadrinho Nacional. Mas, que tal comemorarmos a Semana do Quadrinho Nacional? Ou o Mês?
Bom… todo dia é dia de quadrinho nacional. E para celebrar pelo menos hoje, publicamos acima a capa da revista de uma legítima representante deste glorioso quadrinho: Glada Gänget! Entendeu? Não? Nada como consultar o Google Translate para nos ajudar nessa missão quase impossível e descobrirmos que se trata da revista sueca Gang Feliz, nome dado para a Turma da Mônica na Suécia. Este é o primeiro número da revista que foi publicada há 35 anos! Isso foi em 1977, mas não nos perguntem o mês… afinal, já traduzimos o título da publicação, oras!
Também é muito legal conhecer o nome que os suecos deram para alguns dos personagens da turminha criada pelo nosso Mauricio de Sousa: Monica é Monika (essa é fácil); Cebolinha é Robban; Cascão é Smutsus; Magali é Pysan; Bidu é Bitsy; Floquinho é Moppen; o elefante mais amado do Brasil é Flumbo; e o Horácio é chamado de… Amfibio.

Para completar, publicamos acima a capa do segundo número da revista Mônica, que chegou às bancas do Brasil em junho de 1970, lançada pela Editora Abril (que estava completando 20 anos de sua fundação).
Ao lado, Cebolinha e Cascão em um dos diversos momentos “sem noção” do galoto que tloca os “eles” pelos “eles”. E abaixo, um momento romântico entre Jotalhão e Rita Najura. O amor é lindo!
Todas as imagens podem ser ampliadas em ótima resolução: basta clicar nelas.
Aproveite que você está lendo este texto e CLIQUE AQUI para ler uma ótima entrevista que Mauricio de Sousa concedeu ao Jornal da ABI (Associação Brasileira de Imprensa), uma publicação mensal distribuída para jornalistas.

Filed under: Comics - Quadrinhos, Desenhistas, Drácula, Naiara-A Filha de Drácula, Nico Rosso, Quadrinhos Brasileiros

Graças ao leitor Gustavo Machado, que enviou para Um Blog no Planeta Mongo a quarta edição da revista Naiara, A Filha de Drácula digitalizada em ótima resolução, pudemos criar o papel de parede acima a partir da capa da publicação lançada pela Editora Taika em 1968. Você, fã de Nico Rosso, da personagem e de histórias de terror, pode baixar a imagem para embelezar seu desktop. Ao lado, o leitor aprecia em alta resolução (clique para ampliar) um quadrinho da 25ª página da história A Teia Diabólica publicada nessa edição da revista onde Naiara bebe o sangue de uma vítima numa taça gigante. Drácula não faria melhor! A vampira Naiara foi uma sacada primorosa dos editores da Taika que queriam explorar o charme e o veneno da mulher-vampira brasileira!
Leia mais sobre o pai de Naiara, o temível Drácula, clicando aqui.
Filed under: Comics - Quadrinhos, Desenhistas, Mafalda, Quino | Tags: Argentina, Espanha, Esto Es, Humor Com Humor se Paga, Joaquín Salvador Lavado, Não me grite!, Publicações Dom Quixote

Talvez você nunca tenha ouvido falar de Joaquín Salvador Lavado, mas provavelmente o apelido que ele recebeu desde criança, sim: Quino, o grande desenhista argentino criador da Mafalda completa 80 anos em 2012. Uma boa pedida para homenageá-lo. Filho de imigrantes espanhóis, Quino nasceu em 1932 na província de Mendoza, na Argentina. Em 1945 ele nem tinha completado 13 anos e sofre a perda de sua mãe. Nesse mesmo ano, ao terminar o primário, decide inscrever-se na Escola de Belas Artes de Mendoza. Quatro anos depois abandona a Escola e começa a procurar emprego: queria trabalhar como desenhista de humor e de histórias em quadrinhos.
O começo foi difícil e ele não encontrava espaço na imprensa argentina para publicar seus desenhos. Até que em 1954, o semanário Esto Es (qualquer semelhança com o nome de alguma revista conhecida não será mera coincidência) começa a publicar seu humor gráfico periodicamente. A partir daí os trabalhos se intensificaram. Em 1963 lança seu primeiro livro – Mundo Quino – e no ano seguinte publica a primeira tira de sua maior criação: Mafalda.

Em 1969 Mafalda é publicada pela primeira vez fora da Argentina. A Itália teve a primazia e Humberto Eco, editor da coleção, escreveu sua apresentação. Em 1970, Mondo Quino também é publicado na Itália e em 72, na Espanha. No ano seguinte é a vez de França e Alemanha conhecerem a arte de Quino e sua Mafalda. Em 1973 é publicado o primeiro álbum de Quino em Portugal: Não me grite! (o desenho abaixo foi extraído desse álbum), que fora lançado um ano antes no México. Editado dentro da coleção Humor Com Humor se Paga, pela Publicações Dom Quixote, esse livro foi exportado para o Brasil numa época em que o artista começava a ser descoberto por aqui. Ou seja: o brilhante humor gráfico de Quino teve que rodar o mundo para, finalmente, ser conhecido pelos brasileiros! Chega a ser um absurdo que países vizinhos estejam tão distantes…

Para ler mais sobre Quino e Mafalda e ver mais imagens de sua famosa personagem, clique aqui (ou no link acima). Para saber mais, visite também o site oficial do artista argentino. A tira da Mafalda (acima) não está completa. Para ler o último quadrinho, clique nela.
Todos os desenhos que ilustram este texto podem ser ampliados em ótima resolução.
Filed under: Comics - Quadrinhos, Liniers | Tags: Bonjour, Quadrinhos argentinos

Esses dois quadrinhos aí de cima são só o início de uma das tiras da série Bonjour, de Liniers. Desta vez suas vítimas são os publicitários. Para ler a tira toda, dê um clique nos quadrinhos e a tira do desenhista argentino aparecerá na tela de seu computador com toda a sua força irônica e deboche. Ou então compre o álbum Bonjour, lançado pela Zarabatana Books, que é ótimo! (Claro… é Liniers!)
Filed under: André Toral, Comics - Quadrinhos, Desenhistas | Tags: Adeus Chamigo Brasileiro, Brasileiros, Comics, Curtas & Escabrosas, Guerra do Paraguai, Hergé, Hiperespaço, hq, Jornal da ABI, O Negócio do Sertão, Quadrinhos, Toral, Troféu HQ Mix

Quando se lê uma história em quadrinhos criada por André Toral, logo se tem certeza de que aquelas páginas têm algo que a diferenciam de boa parte da produção do gênero. Não se trata apenas do seu traço marcante e dos criativos enquadramentos. Seus quadrinhos têm consistência histórica, roteiros minuciosamente elaborados e os diálogos dos personagens geralmente reproduzem o tempo e o local onde estão inseridos. Adeus Chamigo Brasileiro, verdadeira obra-prima que conta histórias sobre a Guerra do Paraguai, é fruto de uma profunda pesquisa acadêmica e foi sua tese de doutorado. “O quadrinho é uma linguagem tão boa quanto a literatura para se falar de ciência. O quadrinho não ilustra o texto, tem autonomia como linguagem”, disse Toral em entrevista publicada recentemente no Jornal da ABI.
Filho de dois destacados intelectuais – a historiadora e crítica de arte Aracy A. Amaral e o prestigiado artista plástico chileno Mário Toral –, desde criança o quadrinista conviveu num ambiente rodeado pela arte, mas chegou a ter complexo por não fazer uma “arte séria”, e sim quadrinhos. Puro engano. Sua obra é consistente e faz parte do que de melhor se produziu em hq no Brasil.

André Toral é antropólogo e atuou por trinta anos como indigenista a serviço de diversos órgãos públicos. Seu autor preferido é Hergé, criador de um personagem ícone das bandas desenhadas européias: Tintin. “Hergé me ensinou que hq é trabalho duro, nada vem fácil, tudo tem que ser construído”, disse. Mas ele confessa que tem uma relação “agoniada” com os quadrinhos: “Desenho muito devagar no lápis. Faço, não gosto; faço, não gosto; faço, gosto, acordo, não gosto, apago, faço de novo. Isso é defeito de quem nunca ganhou dinheiro com quadrinhos, como é o meu caso”, admite.
Seu envolvimento com essa arte começou na cultuada revista Animal. O álbum de estréia foi O Negócio do Sertão: Como Descolar uma Grana no Século XVII, premiado com o Troféu HQMix de Melhor Roteirista. Recentemente chegou às livrarias um novo álbum que reúne algumas das pequenas histórias publicadas na revista Brasileiros: Curtas & Escabrosas mostra que as narrativas não precisam ter muitas páginas para serem uma grande história. A maioria tem apenas duas. Pouco, mas o suficiente para Toral nos surpreender a cada quadrinho.

Eu e César Silva, editor do excelente blog Mensagens do Hiperespaço, entrevistamos André Toral para o Jornal da ABI. Ele nos contou também seu processo de criação e os perigos que enfrentou como antropólogo: “Eu não tinha a menor idéia do poder das pessoas com a qual a gente se batia, das ameaças concretas que estavam rolando”. Não é à toa que a leitura de seus quadrinhos é tão densa e prazerosa. “Faço uma história e ela vale pelo que se desenvolve. A travessia é o que conta, não é a chegada. A viagem é o importante”.

Para ler a entrevista, clique no link do Jornal da ABI (acima).

Todas as imagens publicadas podem ser ampliadas. Clique nelas.
Filed under: Comics - Quadrinhos, Corto Maltese, Hugo Pratt | Tags: A Balada do Mar Salgado, Alberto Breccia, Antoine Saint-Exupery, bande dessinée, Ernest Hemingway, Jack London, José Luis Salinas, Joseph Conrad, Melville Herman, Pinacoteca, Robert Louis Stevenson

Uma belíssima exposição está para terminar neste domingo. E para vê-la é necessário estar na Cidade-Luz: a Pinacoteca de Paris apresenta até o dia 21 de agosto a mostra Le Voyage imaginaire d’Hugo Pratt, com uma grande retrospectiva de um dos maiores criadores de quadrinhos do mundo. São mais de cem aquarelas, a maioria pouco conhecida do público em geral, além de todas as pranchas originais da primeira história de Corto Maltese: A Balada do Mar Salgado, criada em 1967, depois de uma viagem que Hugo Pratt fez ao Caribe.

Aliás, a vida de Pratt é digna de um filme de aventuras: ele viajou o mundo todo, trabalhou na Argentina, onde conheceu artistas como José Luis Salinas e Alberto Breccia, e conheceu o Brasil, onde esteve na Amazônia e no Pantanal. Entre suas influências literárias estão obras dos escritores Robert Louis Stevenson, Joseph Conrad, Melville Herman, Jack London, Ernest Hemingway e Antoine Saint-Exupery.
Na Europa os quadrinhos são muito mais valorizados como arte e cultuados não só por admiradores, mas também por estudiosos. Uma pena que no Brasil isso não aconteça!

As imagens acima podem ser baixadas e usadas como papéis de parede em seu computador. Esta última eu já havia publicado em 2006. Dei uma pequena atualizada. Clique nelas para baixar. Assista AQUI ao vídeo sobre essa exposição na Pinacoteca.
Filed under: 0s Primórdios, Angelo Agostini, Comics - Quadrinhos, Cronologia dos Quadrinhos, Desenhistas, Quadrinhos Brasileiros | Tags: Ally Sloper, As Aventuras de Nhô-Quim, As Aventuras de Zé Caipora, Athos Cardoso, Hal Foster, Impressões de uma Viagem à Corte, Marie Duval, Max und Moritz, Monsieur Reac, Monsieux Vieux Bois, Nadar, O Malho, Revista Illustrada, Senado Federal, The Yellow Kid, Topffer, Troféu HQ Mix, Vida Fluminense, Zé Caipora

Um livro importantíssimo para o resgate da obra de Angelo Agostini na História da cultura brasileira é As Aventuras de Nhô-Quim & Zé Caipora, de autoria do pesquisador Athos Eichler Cardoso, cuja primeira edição foi lançada em 2002 dentro da série Edições do Senado Federal. O livro recebeu o Troféu HQ Mix na categoria Valorização dos Quadrinhos. Esse foi um dos motivos para o lançamento de uma segunda edição em 2005.

O álbum reproduz, com cuidadoso trabalho de restauração digital, os capítulos das primeiras histórias em quadrinhos brasileiras, criadas pelo mestre Agostini. São elas: As Aventuras de Nhô-Quim, ou Impressões de uma Viagem à Corte, (vemos o atrapalhado Nhô-Quim em dois momentos acima e embaixo) publicados em página dupla na Vida Fluminense, e As Aventuras do Zé Caipora, publicadas na Revista Illustrada, em Don Quixote e, numa última fase, em O Malho.
Folhear este álbum impresso em papel couchê e no formato A4 é voltar no tempo e descobrir um verdadeiro tesouro artístico, criativo e absolutamente pioneiro. É compreender melhor como era o Brasil, sua gente e seus costumes em fins do século 19. A recuperação desses documentos, portanto, é essencial para manter um registro iconográfico fiel desse período.

Publicada a partir de 1869, As Aventuras de Nhô-Quim foi a primeira história em quadrinhos brasileira e a quinta do mundo. A primazia de ser o pioneiro coube a um caricaturista suíço, Rodolphe Topffer, que publicou em 1827 a história Monsieux Vieux Bois. Hoje o autor é considerado o pai dos quadrinhos, apesar de seus traços serem bem primários, quase infantis (como se pode ver clicando no link). A história Monsieur Reac, criada em 1948 pelo fotógrafo e desenhista francês Nadar, pseudônimo de Gaspard-Félix Tournachon, é considerada a segunda hq. A dupla endiabrada Max und Moritz, famosa criação do pintor e caricaturista alemão Wilhelm Busch, chegou em 1865 e, dois anos depois Ally Sloper começaria a ser publicada regularmente na revista britânica Judy com desenhos de Charles H. Ross – que também escrevia as histórias – e a elegante arte-final da cartunista francesa Marie Duval, pseudônimo de Emilie de Tessier (que era mulher de Ross).
Uma enorme diferença de 67 anos separa a história em quadrinhos de Topffer da criação do desenhista norte-americano Richard F. Outcault, The Yellow Kid, que era alardeado aos quatro ventos como o primeiro personagem dos quadrinhos (“comics” dos Estados Unidos). Como se pode ver, não é! Yellow Kid só começou a ser publicado em 1894. Até o nosso Zé Caipora, de Angelo Agostini, estreou 11 anos antes do garoto amarelo lançado no New York World, de Joseph Pulitzer!

Quando começou a desenhar As Aventuras de Zé Caipora, em 27 de janeiro de 1883, Agostini já era um quarentão famoso, dono da principal publicação ilustrada da Corte (a Revista Illustrada) e de um traço refinado. Zé Caipora começou cômico, mas o personagem ganhou nova dimensão criativa e gráfica logo depois, quando se torna um aventureiro. A arte seqüencial de Agostini é dinâmica, ágil, elegante e, como linguagem moderna de quadrinhos, antecede em muito tempo seus congêneres Tarzan e Príncipe Valente, ambos de Hal Foster; e Flash Gordon e Jim das Selvas, de Alex Raymond.
Como ressalta Athos Cardoso em seu livro, “cabe a Angelo Agostini o título de avô das tiras de aventura, como precursor da temática e a Zé Caipora, o de primeiro herói brasileiro e universal do gênero”. Realmente, As Aventuras de Zé Caipora pode ser considerada, sem sombra de dúvidas, a primeira história em quadrinhos de aventura do mundo. Que nos desculpe Hal Foster.
Agora só falta o Conselho Editorial do Senado Federal autorizar uma terceira reimpressão do livro, pois a segunda edição também já se encontra esgotada. A memória brasileira merece.

As três páginas que ilustram este texto foram extraídas da história em quadrinhos As Aventuras de Zé Caipora. Nosso herói enfrenta uma onça e coloca a vida em risco para salvar a índia Inaiá! Bravura indômita!
Clique nas imagens para ampliá-las em ótima resolução e ver os detalhes do traço de Agostini.
Filed under: A lendária Ebal, Álvaro de Moya, Comics - Quadrinhos, Desenhistas, Edição Maravilhosa, Exposição de 1951, Jayme Cortez | Tags: A Marcha, Afonso Schmidt, Excelsior, Macbeth, Miguel Penteado, O Tempo, Reinaldo de Oliveira, Seleções de Terror, Shakespeare, Syllas Roberg, Tupi

Hoje é um grande dia para os quadrinhos mundiais! Faz 60 anos que cinco jovens artistas idealistas – Álvaro de Moya, Jayme Cortez, Syllas Roberg, Reinaldo de Oliveira e Miguel Penteado – criaram a Primeira Exposição Internacional de Histórias em Quadrinhos, cuja abertura aconteceu no dia 18 de junho de 1951 na sede do Centro de Cultura e Progresso, no Bom Retiro, em São Paulo. Segundo o jornal O Globo que circulou no dia da inauguração do evento, “a iniciativa não tem finalidade de lucro. A exposição tem caráter elucidativo, didático, técnico, artístico, guardando, porém, a devida acessibilidade ao público.” Jayme Cortez, um dos organizadores do evento, declarou ao jornalista Tito Silveira em matéria publicada na Tribuna da Imprensa – outro jornal carioca que cobriu o evento –, que eles querem “mostrar que as histórias em quadrinhos, quando bem executadas, são verdadeiras obras de arte, com a sua linguagem própria e em idade adulta.”
É bom que se diga que os quadrinhos naquela época eram combatidos ferozmente por “defensores da família e dos bons costumes”. As revistas em quadrinhos eram consideradas uma ameaça à juventude. Por isso a atitude desses cinco rapazes paulistas foi muito corajosa e exemplar. Em declaração na mesma matéria de O Globo, Álvaro de Moya explicou que se generalizou no Brasil, “onde ainda não apareceu um crítico sequer ou literato que entendesse, o péssimo costume daqueles que, no aparecimento das primeiras letras, no nascimento do cinema, etc, se revoltaram contra a juventude e procuraram cercá-la de adjetivos desairosos.”

Álvaro de Moya era desenhista na época. Foi chargista e ilustrador do jornal O Tempo, de São Paulo, a partir de julho de 1950 (o desenho acima foi publicado nesse jornal em 7 de dezembro de 1952). Participou também da inauguração da televisão no Brasil, pois foi o responsável pelos desenhos dos letreiros do programa de inauguração da TV Tupi, em 18 de setembro de 1950. Desenhou as adaptações para os quadrinhos de A Marcha, baseado na obra de Afonso Schmidt, para a revista Edição Maravilhosa, da Ebal, e Zumbi, sobre a vida do Rei dos Palmares.
Desenhou também Macbeth, de Shakespeare, para a revista Seleções de Terror, editada por Jayme Cortez. Abaixo, a primeira página da história e mais embaixo, um quadrinho de Macbeth no detalhe. A respeito dela, Moya sempre lembra que não foi ele quem fez toda a arte-final: “Jayme Cortez me ajudou a passar o pincel em vários quadrinhos”. E realmente dá para perceber o traço de seu grande amigo. Essa história está nos anais dos quadrinhos brasileiros porque juntou dois mestres: Álvaro de Moya e Jayme Cortez!

Depois os caminhos da vida levaram Moya para a televisão. Além de trabalhar na Tupi, inaugurou a Bandeirantes, foi diretor da Tv Excelsior. Mas nunca deixou de acompanhar sua verdadeira paixão de perto. Hoje, 60 anos depois dessa incrível aventura que aconteceu em 1951, ele guarda mais do que lembranças. Guarda orgulho de dizer: “Fomos os primeiros!”

Na foto do alto, Álvaro de Moya olha para vários originais grudados na parede. São páginas de A Marcha, a história em quadrinhos que ele desenhou para a revista Edição Maravilhosa, da Ebal. Lindos originais, por sinal. Em breve falaremos sobre eles!
Todas as imagens que ilustram este texto podem ser ampliadas. A foto, depois de ampliada, aparecerá em alta resolução.
Visite o blog que homenageia o grande desenhista Jayme Cortez, organizado pelo ilustrador Fabio Moraes.
Filed under: Comics - Quadrinhos, Desenhistas, Jô Oliveira, Peanuts | Tags: A Guerra do Reino Divino, Alack Sinner, AlterLinus 5, Bud Sagendorf, Carlos Sampayo, Claude Moliterni, Dropouts, Edward Gorey, Fosdyke Saga, Frank Robbins, Guido Crepax, Howard Post, José Muñoz, L'uccello Adolfo, Linus, Patrice Serres, Popeye, Riflesso, Schulz, Snoopy, Valentina, Viet Blues

O tempo passa impiedosamente, sem perguntar que dia é hoje, que horas são. Há dois anos prometi divulgar a capa da revista AlterLinus 5, com o desenho do nosso Jô Oliveira, quando escrevi o texto A saga nordestina de Jô Oliveira. Só agora me dei conta de que ainda não havia cumprido a promessa. Mas corrijo esta falha agora.
A data de capa da AlterLinus 5 é maio de 1975 e este era apenas o segundo ano da revista, que foi lançada na Italia em janeiro de 1974 com a missão de publicar principalmente histórias mais densas e de aventura, deixando sua irmã editorial, a famosa revista Linus, publicada desde 1965, com as tiras de humor.

Isso não quer dizer que a nova publicação deixaria de lado as tiras cômicas, mas elas teriam um espaço bem definido. Na AlterLinus 5, por exemplo, a exceção coube à Dropouts, de Howard Post, que ocupou as duas contra-capas. Foram publicadas também três páginas dominicais de Snoopy, de Charles M. Schulz, e uma história com sete páginas de Popeye, de Bud Sagendorf. Mas estas não eram tiras.

Presentes na edição outros grandes mestres do traço. A revista começa com o terceiro e último capítulo da história Viet Blues, uma aventura do detetive Alack Sinner, criado pelos argentinos José Muñoz e Carlos Sampayo. O desenhista Muñoz faz um admirável trabalho de claro-escuro nas histórias de seu personagem, além imprimir um ritmo cinematográfico nos cortes dos quadrinhos.

Acima, mais uma página de Alack Sinner, de Muñoz. Abaixo, Dick Tracy.

Na seqüência da revista aparece um clássico dos quadrinhos que ocupa nada menos do que 31 páginas: Dick Tracy, de Chester Gould. Em seguida, outra aventura onde o claro-escuro dá o tom gráfico da história: Yves Sainclair (página abaixo), de Claude Moliterni, com desenhos de Patrice Serres, desenhista francês que é discípulo do renomado Frank Robbins, criador de Johnny Hazard.

O belo conto L’uccello Adolfo, do famoso escritor e ilustrador estadunidense Edward Gorey, ocupa as oito páginas seqüentes (essa história pode ser “vista” no YouTube),

e elas antecedem à terceira e última parte de Riflesso, uma história de Valentina, de Guido Crepax.

Agora chegamos ao ponto alto de AlterLinus 5, de 1975, (não por acaso, a história da capa): a partir da página 76 começa La Guerra del Regno Divino, de Jô Oliveira. São 16 páginas de encher os olhos. Não que as outras histórias não fossem ótimas. E essa é a grande qualidade da publicação: grandes nomes dos quadrinhos do mundo inteiro dão brilho especial em todas as páginas da revista. Mas A Guerra do Reino Divino deu à publicação uma sofisticação gráfica única. Jô Oliveira apresenta a mais perfeita fusão entre a arte da literatura de cordel e as histórias em quadrinhos, resultando num trabalho de impacto visual que se destaca entre todos. Naquela época, em 1975, Jô Oliveira fazia carreira na Europa e era praticamente desconhecido no Brasil. Um pecado! (leia mais aqui)

A revista encerra a edição com as 13 páginas da série Fosdyke Saga, do cartunista inglês Bill Tidy, além das histórias já citadas de Popeye e Snoopy.
Enquanto foi editada a AlterLinus publicou quadrinhos de nomes como Hugo Pratt e seu Corto Maltese; Pichard e Wolinski, com Paulette; Crepax e sua Valentina, além de Moebius, Sergio Toppi e do brasileiro Jô Oliveira. O primeiro número, em 1974, trouxe o início da clássica adaptação de Ulisses, de Homero, por Lob e Pichard. Pena que não se editam mais revistas assim.

Todas as imagens que ilustram este texto podem ser ampliadas: basta clicar nelas.
Filed under: Antonino Homobono, Comics - Quadrinhos, Desenhistas, Drácula | Tags: A Vingança de Mary, Anos 80, artwork, Balieiro, Bloch, Capitão Mistério, Christopher Lee, Conde, desenho, Lorde das Trevas, Príncipe das Trevas, Vampiro

Naqueles tempos não existiam computadores pessoais e os desenhistas de quadrinhos no Brasil trabalhavam assim, na munheca! No início dos anos 80 havia uma razoável produção de quadrinhos no país e os desenhistas recebiam das editoras papéis especiais – uma espécie de matriz – com as marcações de linhas (normalmente impressas em cian bem claro) para o letrista escrever nos balões e alguns espaços que delimitavam onde nossos bravos heróis do traço deveriam ablaquear sua criatividade! Tive acesso a alguns originais de um dos maiores mestres dos quadrinhos brasileiros: Antonino Homobono Balieiro! E digitalizei estas páginas para que os leitores deste blog pudessem apreciar o trabalho deste abnegado traçador.

São originais da história A Vingança de Mary, publicada nas páginas 4, 15 e 17 da revista Capitão Mistério – Drácula número 26, da Bloch Editores. Neles, podemos apreciar a qualidade da pincelada do Antonino, alguns traços a lápis que ainda persistem e as marcas que o tempo deixou nessas obras de arte. Vemos também as linhas-guia para o letreiramento e a fotocomposição (quem lembra disso?!) colada com o nome da revista e o número da página.

Na página 4 dá para ver a marca do grampo no canto superior esquerdo onde certamente havia algum papel preso, e um corte quadrado com papel colado por trás. Na página 15, o close no Drácula deixa claro a preferência do desenhista pelo ator Christopher Lee. E as mulheres são sensuais e sempre aparecem com pouca roupa. Como convém a uma história de terror onde o Príncipe das Trevas é o centro das atenções.
Quer ver a página de abertura da história A Vingança de Mary? Então, clique no link ou clique aqui para ver mais desenhos de Antonino Homobono, que hoje faria aniversário.
Filed under: Comics - Quadrinhos, Milton Caniff, Peanuts | Tags: CBL, Chico Buarque, Edney Silvestre, Leite Derramado, Prêmio Jabuti, Record

Depois que o Grupo Editorial Record ameaçou boicotar o Prêmio Jabuti em protesto contra a escolha de Leite Derramado, de Chico Buarque, como vencedor na categoria Livro do Ano de Ficção (na categoria Romance a obra de Chico ficou em segundo lugar, atrás de Se Eu Fechar os Olhos Agora, de Edney Silvestre, publicado pela Record), a Câmara Brasileira do Livro (CBL) fez várias mudanças no regulamento do tradicional prêmio para tentar apaziguar os ânimos. Entre outras novidades deste ano, o número de categorias aumentou de 21 para 29. Ou seja, a quantidade de categorias possíveis de premiação aumentou em quase 40%! São elas:
Melhor Livro de Arquitetura e Urbanismo 
Melhor Livro de Fotografia;
Melhor Livro de Comunicação;
Melhor Livro de Artes;
Melhor Livro de Teoria/Crítica Literária
Melhor Livro de Ciências Exatas
Melhor Livro de Tecnologia e Informática
Melhor Livro de Educação
Melhor Livro de Psicologia e Psicanálise
Melhor Livro de Reportagem
Melhor Livro Didático e Paradidático
Melhor Livro de Economia, Administração e Negócios
Melhor Livro de Direito
Melhor Livro de Biografia
Melhor Livro de Poesia
Melhor Livro de Ciências Humanas
Melhor Livro de Ciências Naturais
Melhor Livro de Ciências da Saúde
Melhor Livro de Contos e Crônicas
Melhor Livro Infantil
Melhor Livro Juvenil
Melhor Livro de Romance
Melhor Livro de Turismo e Hotelaria
Melhor Livro de Gastronomia
Além dos prêmios para Melhor Tradução; Melhor Projeto Gráfico; Melhor Ilustração de Livro Infantil ou Juvenil; Melhor Ilustração e Melhor Capa.
Notaram? O Prêmio Jabuti valoriza diversas áreas: Ciências da Saúde, Psicologia e Psicanálise, Turismo e Hotelaria, Gastronomia, Tecnologia e Informática. Tudo muito justo. Mas esqueceu de um importante segmento que, a cada dia, ganha mais espaço nas boas livrarias do ramo: os quadrinhos! Por que não incluir uma categoria de Melhor Livro de Histórias em Quadrinhos, já que temos tantos e tão bons lançamentos mensais? Preconceito? Ignorância sobre o assunto? Não sei ainda. Mas vale a pena tentar descobrir o motivo.
Charlie Brown e Steve Canyon, dos geniais Charles Schultz e Milton Caniff respectivamente, aparecem neste texto só para ilustrar mesmo. Não têm nada a ver com a notícia. Pelo menos, por enquanto.
Filed under: Comics - Quadrinhos, Marvel, Moebius - Jean Giraud, Surfista Prateado | Tags: Jean Giraud, Parable, Parábula, Silver Surfer, Stan Lee, Universo Marvel

E lá se vão 23 anos! Em 1988 a Marvel lançou uma pequena obra-prima dos quadrinhos: com texto de Stan Lee e desenhos do mestre Jean Giraud, conhecido também como Moebius, surge a graphic novel Silver Surfer: Parable, que chegou ao Brasil em maio do ano seguinte pela Editora Abril. Ao contrário da capa americana, a edição especial brasileira não teve o título Parábola em destaque na capa. A revista saiu apenas com o nome do personagem: Surfista Prateado. Era o número 11 da série Graphic Novel. Quando Lee teve a idéia de convidar Moebius para desenhar uma história para a Marvel ele sabia exatamente o que esperar de seu traço limpo e qual personagem dar ao grande desenhista da Metal Hurlant. Esqueça as explosões e onomatopéias fantásticas comuns ao Universo Marvel. Moebius coloca seu estilo sofisticado a serviço de um personagem contemplativo, perfeito para seu desenho e a beleza de seu trabalho honrou a criação de Jack Kirby. Os dois desenhos publicados nesta postagem são detalhes extraídos da edição brasileira e podem ser ampliados em boa resolução. Para saber um pouco mais sobre essa edição, leia o texto publicado neste blog.

Filed under: A lendária Ebal, Comics - Quadrinhos, FHAF, Jayme Cortez, Mauricio de Sousa | Tags: Adolfo Aizen, Cronologia, Jornal da ABI, Quadrinhos

Depois de alguns meses sendo adiada, finalmente foi lançada a edição especial do Jornal da ABI totalmente dedicada aos quadrinhos. É o número 362, que publica a segunda parte da Cronologia dos Quadrinhos iniciada na edição 348, onde foram publicados os principais eventos da nona arte até 1949. Nesta segunda edição, além da cronologia chegar ao ano de 1977, o leitor poderá conferir uma ótima entrevista com Mauricio de Sousa e outra com Floriano Hermeto, o cultuado desenhista que assinava FHAF e entrou para a história dos quadrinhos brasileiros pelo trabalho que realizou em apenas cinco histórias da revista O Judoka, da Ebal. A publicação também presta uma justa homenagem a Adolfo Aizen e a Jayme Cortez, pilares das hqs no Brasil.
O Jornal da ABI 362 – Cronologia dos Quadrinhos, Parte 2, que pode ser folheado virtualmente pela internet (clique no link), será lançado no Rio de Janeiro no dia 9 de fevereiro (próxima quarta) na Livraria da Travessa do Leblon a partir das 19h30min. O convite está aí embaixo. Clique nele para ampliá-lo.

Ficha técnica
Editores: Maurício Azêdo e Francisco Ucha
Projeto gráfico e diagramação: Francisco Ucha
Edição de textos: Maurício Azêdo
Pesquisa e redação: Francisco Ucha, Otacílio d’Assunção e César Silva (pesquisa)


